
No Reino de Valedouro, o inverno não era apenas uma estação; era uma ameaça constante. O reino ficava encravado entre picos de montanhas tão altas que arranhavam o céu, cobertas de neve eterna. No entanto, o vale onde o povo vivia era um milagre verdejante. Havia fontes termais fumegantes, pomares de maçãs vermelhas e campos de trigo que nunca congelavam.
O povo de Valedouro acreditava que essa sorte era uma bênção dos antigos reis. Mas eles também acreditavam em uma maldição.
No pico mais alto, o Monte Cinzento, vivia Ignis.
Ignis era um dragão. Ninguém o tinha visto de perto e sobrevivido para contar a história — ou pelo menos era o que diziam as lendas. Às vezes, uma coluna de fumaça escura subia da montanha, ou um rugido grave fazia as janelas do castelo tremerem.
— O Monstro está acordado — sussurravam as mães, fechando as cortinas. — Ele está com raiva e quer queimar nossas casas.
O Rei Teodoro, um homem bom, mas preocupado, mantinha guardas apontando bestas para a montanha dia e noite. Todos os anos, cavaleiros valentes subiam a trilha tortuosa para tentar matar a fera. Nenhum deles encontrava o dragão; eles voltavam chamuscados, cansados e dizendo que o calor insuportável da caverna os havia expulsado.
Mas a Princesa Aurélia via as coisas de forma diferente.
Aurélia tinha dezesseis anos e uma mente de cientista. Ela não gostava de rumores; ela gostava de padrões. Ela passava horas na biblioteca real, estudando os registros do clima. E ela notou algo que ninguém mais viu.
Sempre que os cavaleiros atacavam a montanha e “machucavam” o dragão, o vale esfriava. As fontes termais paravam de borbulhar. A geada matava as macieiras. Por outro lado, quando o dragão rugia alto e a fumaça saía forte da montanha, o vale florescia, a água ficava quentinha e as colheitas eram fartas.
— Ele não é uma ameaça, pai — tentou explicar Aurélia durante o jantar. — Ele é a fornalha. Ele é o que nos mantém aquecidos!
— Bobagem, Aurélia — respondeu o Rei, cortando seu bife. — Dragões são monstros. Monstros destroem. É a natureza deles. Amanhã, enviarei o maior exército que já reunimos. Vamos acabar com essa ameaça de uma vez por todas.
O coração de Aurélia gelou. Se matassem o dragão, ela tinha certeza: Valedouro se tornaria um deserto de gelo em questão de dias.
Naquela noite, sob a luz de uma lua pálida, Aurélia tomou uma decisão. Ela não levaria uma espada. Ela encheu sua mochila com pães frescos, queijos, potes de mel e, mais importante, um grande livro de histórias antigas. Ela vestiu sua capa de viagem mais grossa e escapou pelos estábulos.
A subida ao Monte Cinzento foi brutal. O vento cortava como faca. Mas, à medida que Aurélia subia, algo mudou. O ar gelado começou a ficar morno. A neve no chão deu lugar a pedras negras e quentes. Cheiro de enxofre misturava-se com cheiro de… pinheiro queimado?
Quando ela chegou à entrada da caverna colossal, o calor era intenso, mas acolhedor, como estar diante de uma lareira gigante numa noite de tempestade.
— Olá? — chamou Aurélia. Sua voz ecoou na escuridão.
Do fundo da caverna, dois olhos abriram-se. Eram fendas verticais de ouro líquido, brilhando na escuridão. Uma cabeça gigantesca, coberta de escamas que pareciam rubis e obsidiana, deslizou para a luz.
O dragão era imenso. Seus dentes eram como espadas de marfim. Mas ele não rugiu. Ele soltou um suspiro cansado, e uma nuvem de fumaça cheiro de cinzas envolveu a princesa.
Aurélia não correu. Ela olhou para o flanco do dragão e viu velhas cicatrizes de lanças e flechas.
— Você deve estar com dor — disse ela suavemente.
O dragão piscou, surpreso. Ele recuou a cabeça, esperando um ataque.
— Por que você não traz ferro afiado, pequena humana? — A voz do dragão não foi falada, mas sentida na mente de Aurélia. Era profunda, antiga e triste.
— Porque ferro não cura — respondeu Aurélia. Ela tirou a mochila das costas. — Eu trouxe mel. E pão. E vim pedir desculpas.
Ignis, o dragão, aproximou-se. Ele cheirou a oferenda. Com uma delicadeza impossível para uma criatura daquele tamanho, ele lambeu o pote de mel.
— Há séculos eles vêm — disse Ignis, telepaticamente. — Eles gritam. Eles jogam coisas pontudas. Eu só quero dormir e sonhar com o fogo do centro da terra.
Aurélia sentou-se numa pedra quente. — Você sabe o que acontece quando você dorme e sonha com o fogo? Ignis balançou a cabeça. — A água do meu reino esquenta. As plantas crescem. Você, Ignis, é o coração do nosso vale. Seu calor viaja pelas raízes da montanha e nos salva do inverno.
O dragão arregalou os olhos dourados. — Eu… salvo? Eles dizem que sou a Morte.
— Eles são tolos e têm medo — disse Aurélia, aproximando-se e tocando o focinho quente do dragão. A escama era áspera, mas emanava uma vibração reconfortante. — Mas amanhã, meu pai virá com um exército. Eles querem… acabar com você.
Ignis suspirou, e uma pequena chama triste saiu de suas narinas. — Então eu terei que voar para longe. E o frio virá.
— Não — disse Aurélia, com firmeza. — Você não vai fugir da sua casa. Nós vamos mostrar a verdade a eles.
Na manhã seguinte, o som de trombetas acordou a montanha. O Rei Teodoro e cinquenta cavaleiros de armaduras brilhantes estavam na base da entrada da caverna, com catapultas e lanças.
— Saia, besta! — gritou o Rei. — Entregue minha filha e aceite seu destino!
Aurélia saiu da caverna. Mas ela não estava correndo de medo. Ela estava montada no ombro de Ignis.
Os cavaleiros recuaram, horrorizados. O Rei empalideceu. — Aurélia! Saia de perto dele! Ele vai te devorar!
— Ele não come princesas, pai! Ele prefere pão com mel! — gritou Aurélia.
Então, ela sussurrou para o dragão: — Agora, Ignis. Mostre a eles. Não o fogo que queima, mas o fogo que vive.
Ignis fechou os olhos e concentrou-se. Ele não cuspiu fogo nos soldados. Em vez disso, ele colocou suas garras sobre o chão rochoso e rugiu — não um rugido de raiva, mas um som profundo, uma vibração que sacudiu a terra.
As escamas de Ignis brilharam intensamente, passando de vermelho para branco incandescente. O calor irradiou dele em ondas suaves. Imediatamente, a neve ao redor dos soldados derreteu. Pequenas flores, que estavam dormentes sob o gelo, brotaram instantaneamente aos pés do Rei. Vapor começou a sair das fendas das pedras, criando uma névoa quente e agradável que envolveu o exército, descongelando suas armaduras e aquecendo seus ossos velhos.
Os soldados baixaram as armas. O Rei sentiu o calor curar a dor que ele sempre sentia no joelho por causa do frio. Ele olhou para o vale lá embaixo e viu, com a nova onda de calor, as fontes termais jorrarem com força renovada.
Aurélia desceu do dragão e caminhou até o pai. — Olhe, pai. Ele não guarda ouro. Ele guarda a nossa vida. Se o matarem, o inverno nos matará.
O Rei Teodoro olhou para a filha, pequena diante da fera, e depois para os olhos dourados de Ignis, que não demonstravam malícia, apenas uma paciência antiga e cansada.
O Rei embainhou sua espada. O barulho do metal ecoou no silêncio. Ele fez uma reverência profunda, não para a filha, mas para o dragão. — Perdoe nossa ignorância, Grande Guardião — disse o Rei, com a voz embargada.
Daquele dia em diante, o Reino de Valedouro mudou. O exército foi dissolvido e transformado em Guardiões da Montanha, cuja função não era atacar, mas levar carroças de comida e limpar a entrada da caverna para Ignis.
Aurélia visitava seu amigo toda semana. Ela lia histórias para ele enquanto ele aquecia as pedras, e Ignis contava a ela sobre os tempos antigos, quando o mundo era jovem e cheio de fogo.
E assim, a Princesa Aurélia ensinou ao mundo a lição mais valiosa de todas: que nem tudo que tem dentes afiados é um monstro, e que, às vezes, a coisa que mais tememos é exatamente a coisa que precisamos abraçar para sobreviver.



