Aventura

O elevador que subia até as nuvens

Historinha O elevador que subia até as nuvens

No centro da cidade grande, existia um prédio antigo chamado Edifício Horizonte. Ele era alto, feito de tijolinhos vermelhos e tinha janelas que brilhavam como olhos gigantes quando o sol batia.

No décimo andar desse prédio morava Pedro. Pedro era um menino de sete anos que adorava colecionar coisas: tampinhas de garrafa, pedrinhas redondas e, principalmente, histórias. Mas o que Pedro mais gostava no prédio não era o seu quarto ou a portaria; era o corredor do fundo.

Lá, escondido atrás de uma cortina de veludo empoeirada, ficava o “Elevador Número 3”.

O Elevador Número 3 não funcionava. Pelo menos, era isso que o síndico, Sr. Bigode, dizia. “Está quebrado há cinquenta anos, Pedro. Nem olhe para ele”, resmungava o síndico. Mas Pedro olhava. Ele achava aquele elevador lindo. As portas eram de grades de ferro dourado, desenhadas como ramos de flores, e lá dentro dava para ver um espelho manchado e madeira escura e brilhante.

Numa tarde de chuva cinzenta, daquelas que não deixam a gente brincar no parquinho, Pedro estava entediado no corredor. Ele chutava uma bolinha de papel quando percebeu algo estranho. A cortina de veludo estava entreaberta e uma luzinha fraca piscava no painel do elevador proibido.

O coração de Pedro fez tum-tum-tum. Ele olhou para os lados. Ninguém.

Ele se aproximou. O painel de chamada não era de plástico como os outros. Era de bronze. E havia apenas um botão, redondo e branco, que parecia feito de pérola. O botão pulsava com uma luz azulada, como se estivesse respirando.

A curiosidade de Pedro foi maior que o medo da bronca do Sr. Bigode. Ele esticou o dedo indicador e… clique.

O prédio tremeu levemente. Ouviu-se um som de correntes antigas acordando: clanque, clanque, zummmm. E então, com uma suavidade surpreendente, as portas douradas se abriram.

O cheiro que saiu de lá de dentro não era de mofo. Era cheiro de “antes da chuva”, aquele cheirinho de terra molhada e vento fresco. Pedro entrou.

Dentro, o elevador era mágico. Havia um banquinho estofado de veludo vermelho e um lustre de cristal no teto. Mas o mais incrível era o painel de botões. Não havia números como 1, 2 ou 10. Havia desenhos. Uma flor, uma árvore, um pássaro e, lá no topo, bem no alto do painel, um botão em forma de Nuvem Prateada.

Pedro sorriu. Ele sabia exatamente para onde queria ir. Ele apertou a Nuvem.

As portas se fecharam. O elevador não subiu rápido, nem deu trancos. Ele flutuou. Pedro sentiu um frio gostoso na barriga. Ele viu, pelas frestas da grade, os andares passarem: 11, 12, Cobertura… e então, o teto do prédio ficou para trás. O elevador continuou subindo pelo ar livre!

Pedro encostou o nariz na grade. A cidade lá embaixo ficou pequena, parecendo um tapete de brinquedo. Os carros eram formiguinhas. E o elevador subia, subia, furando a neblina cinza da chuva até que… PLUF!

A luz cinza sumiu. De repente, tudo ficou dourado e brilhante. O elevador parou suavemente e as portas se abriram.

Pedro não estava mais no topo do prédio. Ele estava em um “piso” branco, fofo e infinito.

— Bem-vindo à Estação Cumulus! — disse uma voz grave e alegre.

Pedro saiu timidamente. O chão afundava sob seus tênis, mas era firme, como pular em um colchão gigante ou andar em cima de marshmallow. Diante dele, estava um senhor baixinho e rechonchudo, usando um macacão azul-celeste e uma barba branca tão fofa que parecia feita do mesmo material que o chão.

— Quem é o senhor? — perguntou Pedro.

— Eu sou o Sr. Nimbo, o Zelador das Nuvens — disse o homem, tirando um espanador de penas do bolso e limpando uma nuvenzinha que passava. — Você deve ser o Pedro. O elevador antigo gosta de trazer visitantes em dias de chuva. As crianças trazem cor para cá.

— Cor? — Pedro olhou ao redor. Tudo era branco, muito branco. O sol brilhava forte acima deles, um céu azul profundo, mas as “montanhas” ao redor eram montanhas de vapor branco.

— Sim! — disse o Sr. Nimbo. — Venha, vamos brincar antes que o vento mude.

O que aconteceu a seguir foi a tarde mais incrível da vida de Pedro. O Sr. Nimbo ensinou que, ali em cima, a física funcionava diferente.

— Quer pular? — perguntou o Zelador.

Pedro deu um pulinho e… WHEEEE! Ele voou três metros para o alto e aterrissou suavemente, quicando na nuvem. Era o maior pula-pula do universo. Ele dava cambalhotas no ar, mergulhava nos montes de neblina e saía sequinho.

Depois, o Sr. Nimbo levou Pedro para a “Oficina de Escultura”. — As pessoas lá embaixo acham que as nuvens mudam de forma por causa do vento — sussurrou Nimbo, piscando um olho. — Mas somos nós que modelamos. Olhe!

O Zelador pegou um pedaço grande de nuvem com as mãos. A matéria era fria, úmida e macia, parecida com massinha de modelar, mas muito leve. — O que você quer fazer, Pedro? — Um dragão! — gritou o menino.

Pedro e Nimbo moldaram um dragão gigante. Pedro fez as asas esticando o vapor, e Nimbo fez o focinho. Quando terminaram, o Sr. Nimbo soprou no dragão. A escultura se soltou do chão e saiu flutuando lentamente pelo céu azul.

— Olha, mãe! — Pedro imaginou alguma criança lá embaixo dizendo. — Aquela nuvem parece um dragão!

Eles fizeram um castelo, um coelho gigante e até um barco pirata que navegou por um rio de arco-íris. Sim, havia arco-íris sólidos ali! Pedro escorregou pela curva vermelha e amarela do arco-íris como se fosse um tobogã de parquinho, caindo numa piscina de neblina fresca.

Mas a parte mais bonita foi o final da tarde. O sol começou a descer no horizonte, tocando a borda do mar de nuvens. — Hora da pintura — anunciou o Sr. Nimbo. Ele abriu uma caixa de tintas que não tinha pincéis, mas sim “sprays” de luz. — Pedro, você quer ajudar a fazer o pôr do sol?

Pedro pegou o spray de cor “Laranja Fogo” e o Sr. Nimbo pegou o “Roxo Violeta”. Eles correram pelas nuvens, borrifando as cores. Onde a tinta tocava o branco, a nuvem absorvia a cor e brilhava intensamente. Pedro pintou o horizonte de dourado, rosa e salmão. Era uma obra de arte viva, gigantesca.

Lá embaixo, na cidade cinzenta, as pessoas pararam nas ruas, fecharam os guarda-chuvas e olharam para cima. — Que entardecer maravilhoso depois da chuva! — diziam elas. Mal sabiam que era o pequeno Pedro, com os tênis sujos de neblina, colorindo o céu.

— O elevador está chamando, meu jovem — disse o Sr. Nimbo suavemente, quando a primeira estrela apareceu.

Pedro sentiu um aperto no coração. Ele não queria ir embora. — Eu posso voltar? — O Elevador Dourado aparece para quem sabe olhar para cima, Pedro. Mantenha a imaginação leve, e as portas se abrirão.

Como despedida, o Sr. Nimbo pegou um pedacinho minúsculo de nuvem, colocou dentro de um potinho de vidro e entregou a Pedro. — Isso é para você não esquecer que o céu é tocável.

Pedro entrou no elevador. As portas de grade dourada se fecharam, escondendo o mundo fofo e colorido. A descida foi rápida. O dourado virou cinza. O cheiro de ozônio voltou a ser cheiro de prédio antigo.

Ding!

As portas se abriram no corredor escuro do décimo andar. A cortina de veludo caiu de volta no lugar, cobrindo o elevador, e a luz do botão de pérola apagou.

A mãe de Pedro apareceu na porta do apartamento. — Pedro! Onde você estava? O jantar está pronto. — Eu estava… brincando lá em cima, mãe — disse Pedro, sorrindo.

— Lá em cima no terraço? Está tudo molhado, filho. Pedro apenas sorriu e colocou a mão no bolso, sentindo o vidro frio do potinho.

Naquela noite, antes de dormir, Pedro olhou o pote. A nuvenzinha lá dentro tinha derretido e virado água cristalina. Mas, no fundo do pote, brilhava uma minúscula pedrinha em forma de estrela.

Pedro foi até a janela. O céu estava limpo e estrelado. Ele piscou para uma nuvem solitária que passava devagar perto da lua. E, lá no alto, ele teve certeza de ter visto o Sr. Nimbo acenar de volta com seu espanador de estrelas.

O mundo nunca mais foi apenas “chão e teto” para Pedro. Agora, ele sabia que a magia morava a apenas um botão de elevador de distância.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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