Aventura

As Férias na Casa da Vovó

Historinha As Férias na Casa da Vovó

O carro da família parou em frente ao portão de ferro enferrujado, levantando uma pequena nuvem de poeira vermelha. Para Leo, de nove anos, aquele som de cascalho sob os pneus soava como uma sentença. Seriam três semanas inteiras na casa de Vovó Clarice. Sem Wi-Fi. Sem videogame. Apenas ele, o cheiro de lavanda que parecia impregnado nas paredes da casa antiga e o tique-taque incessante do relógio de pêndulo no corredor.

— Anime-se, filho! — disse a mãe, tirando as malas do porta-malas. — O ar do campo vai te fazer bem. E a comida da vovó é imbatível.

Vovó Clarice esperava na varanda. Ela era pequena, com cabelos brancos que pareciam nuvens presas num coque, e usava um avental florido que sempre cheirava a canela e terra molhada. Ela abraçou Leo com força.

— Você cresceu, meu querido — disse ela, segurando o rosto dele entre as mãos enrugadas. — Espero que tenha trazido sua imaginação. O sinal de internet aqui é fraco, mas o sinal para aventuras é fortíssimo.

Leo sorriu amarelo. Ele duvidava que houvesse muita aventura em observar as galinhas ou ajudar a debulhar feijão.

Os dois primeiros dias foram exatamente como Leo temia: lentos. Ele leu os gibis antigos que o pai deixara lá nos anos 90, jogou cartas sozinho e contou quantas vezes o relógio badalava. No terceiro dia, porém, o tédio o empurrou para fora de casa.

— Cuidado com o fundo do quintal — gritou a avó da janela da cozinha, enquanto passava café. — O mato está alto perto do velho carvalho. E dizem que os gnomos estão mal-humorados essa semana.

Leo riu. Gnomos. Vovó Clarice sempre teve um senso de humor estranho.

O quintal era imenso. Começava com um gramado bem cuidado, cheio de flores coloridas, mas, à medida que se afastava da casa, a natureza tornava-se selvagem. Samambaias gigantescas, árvores com raízes expostas e trepadeiras que cobriam antigos muros de pedra.

Leo caminhou até o limite do terreno, onde um carvalho colossal projetava uma sombra fresca. Foi então que ele viu. Não era um gnomo, mas algo igualmente estranho. Entre as raízes do carvalho, quase engolido pela hera, havia um pequeno arco de pedra, não maior que uma porta de cachorro. Dentro do arco, o ar tremeluzia, como o asfalto em um dia muito quente.

Curioso, Leo se agachou. Ele estendeu a mão e, ao invés de tocar na pedra fria ou na terra, seus dedos atravessaram a ondulação no ar. Ele sentiu uma brisa gelada e cheiro de… maresia?

Sem pensar duas vezes, impulsionado por aquela coragem repentina que só o tédio extremo proporciona, Leo engatinhou para dentro do arco.

O mundo girou. As cores se inverteram por um segundo e, de repente, ele não estava mais no quintal de Vovó Clarice.

Leo levantou-se, limpando os joelhos. Ele estava em uma praia, mas a areia era azul-cobalto e o mar tinha uma cor de mel dourado. O céu era de um violeta profundo, com três pequenos sóis alaranjados girando lentamente no horizonte.

— Você está atrasado para o chá — disse uma voz rouca.

Leo olhou para baixo. Um caranguejo do tamanho de um gato, usando uma cartola elegante e segurando um monóculo, o encarava.

— Eu… eu não sabia que havia chá — gaguejou Leo.

— Sempre há chá na Costa Dourada — retrucou o caranguejo, estalando as pinças. — Vamos, a Maré de Biscoitos está subindo.

Leo passou a tarde mais estranha de sua vida. Ele ajudou o caranguejo, cujo nome era Bartolomeu, a recolher conchas que cantavam óperas quando colocadas no ouvido. Ele viu peixes voadores que tinham asas de borboleta e provou a água do mar, que realmente tinha gosto de mel diluído.

Quando os três sóis começaram a se pôr, o caranguejo avisou: — O portal vai fechar. Volte, menino Leo. E traga pimenta do reino na próxima vez. A sopa de algas precisa de tempero.

Leo correu de volta para o ponto onde o ar tremeluzia na praia azul e pulou.

Ele caiu de cara na grama do quintal da avó. O sol do “mundo real” também estava se pondo. Ele correu para dentro de casa, sujo de terra e com o coração disparado.

Vovó Clarice estava colocando uma travessa de bolo de fubá na mesa. Ela olhou para as roupas de Leo, notando a areia azul brilhante grudada na barra da calça dele. Ela não perguntou onde ele estava. Apenas sorriu e piscou um olho.

— Lavou as mãos? O jantar está pronto.

Nos dias seguintes, as férias de Leo transformaram-se completamente. O quintal não era apenas um jardim; era uma estação de trem para o impossível.

Na terça-feira, ele encontrou uma passagem atrás da velha estátua de anjo, perto das roseiras. Ela o levou para a Floresta das Nuvens, onde o chão era feito de algodão macio e ele podia pular tão alto que tocava o topo das árvores. Lá, ele conheceu pássaros que recitavam poesias e o ensinaram a assobiar cores.

Na quinta-feira, ele descobriu um buraco no muro de tijolos coberto de musgo. Ao espiar, foi sugado para a Cidade dos Relógios, um lugar mecânico onde as ruas se moviam como engrenagens e o tempo andava para trás se você caminhasse de costas. Ele consertou a asa de um pássaro de metal usando um grampo de cabelo que encontrou no bolso e, em troca, ganhou uma pequena engrenagem dourada.

A cada retorno, Leo trazia um pequeno souvenir: uma pena prateada, uma pedra que mudava de cor conforme o humor dele, a engrenagem dourada. Ele guardava tudo em uma caixa de sapatos debaixo da cama.

Mas o mais curioso era a reação da Vovó Clarice. Ela nunca se surpreendia.

Numa noite chuvosa, perto do fim das férias, Leo estava sentado na cozinha, tomando chocolate quente. A chuva batia na janela, criando um ritmo aconchegante.

— Vovó — começou Leo, hesitante. — O seu quintal… ele é diferente.

Clarice parou de tricotar. Ela olhou para o neto por cima dos óculos. — Diferente como?

— Tem lugares. Lugares escondidos. Eu conheci um caranguejo que fala. E andei nas nuvens.

Leo esperou que ela risse, ou dissesse que ele estava sonhando acordado, ou talvez que medisse sua febre.

Em vez disso, Vovó Clarice levantou-se, foi até o armário de louças antigo e puxou uma gaveta que Leo nunca tinha visto aberta. Ela tirou de lá uma caixa de madeira talhada.

Ao abrir a caixa, os olhos de Leo se arregalaram. Ali dentro havia uma concha que cantava, um pedaço de nuvem cristalizado dentro de um vidro e uma bússola que não apontava para o norte.

— O Sr. Bartolomeu ainda reclama da falta de pimenta na sopa? — perguntou ela, com um sorriso sapeca.

Leo riu, um riso de alívio e pura felicidade. — Ele pediu para eu levar um pouco na próxima vez!

— Eu costumava visitar a Costa Dourada todos os verões quando tinha a sua idade — disse a avó, sentando-se ao lado dele. — Aquele quintal é especial, Leo. Ele sabe quem tem o coração aberto para a magia. Muitos adultos olham para aquele carvalho e veem apenas madeira e folhas. Você viu a porta.

— Por que você parou de ir? — perguntou Leo.

— Eu não parei — sussurrou ela. — Só que agora, minhas pernas não são tão rápidas para correr da Maré de Biscoitos. Mas eu visito outros lugares. O jardim tem passagens para todas as idades, se você souber onde procurar.

Naquela noite, Leo não dormiu apenas com a lembrança das aventuras, mas com uma nova conexão com a avó. Ela não era apenas uma velhinha que fazia bolos; ela era uma exploradora, uma guardiã de segredos, uma viajante de mundos.

O dia da partida chegou rápido demais. Enquanto o pai colocava as malas no carro, Leo correu até o velho carvalho.

— Até logo — sussurrou ele para o arco de hera. — Eu volto no ano que vem.

Ele entrou no carro, segurando a pequena engrenagem dourada no bolso. Enquanto o carro se afastava, levantando a poeira da estrada, Leo olhou para trás. Vovó Clarice estava no portão, acenando. Ao lado dela, o gato da casa parecia estar usando… uma cartola?

Leo esfregou os olhos e riu. O tablet, esquecido no fundo da mochila, estava sem bateria há dias, e ele nem se importava. O mundo real era bom, mas saber que o mundo mágico existia no quintal da Vovó fazia a vida ter um brilho totalmente diferente. As férias tinham acabado, mas a magia, ele sabia, estava apenas começando.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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