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O Verão do Sorvete Infinito

Historinha O Verão do Sorvete Infinito

O calor na pequena cidade de Vila Girassol naquele ano não estava para brincadeira. Era um daqueles verões em que o asfalto parecia querer derreter e grudar nos sapatos, e até as cigarras pareciam cansadas demais para cantar. As crianças da cidade passavam os dias deitadas no chão de piso frio das salas, sonhando com brisas polares e cubos de gelo.

Téo, um menino de dez anos com sardas no rosto e joelhos sempre ralados, estava sentado na calçada com sua melhor amiga, Marina. Eles seguravam picolés de limão que tinham derretido antes mesmo de serem abertos, transformando-se em suco quente no palito.

— Se o verão continuar assim — suspirou Marina, limpando uma gota pegajosa da mão —, acho que vou evaporar e virar uma nuvem.

— Pelo menos lá em cima deve ser fresco — respondeu Téo.

Foi nesse momento de desespero calorento que algo impossível aconteceu. Na esquina da Rua das Acácias com a Avenida do Sol, onde antes havia um terreno baldio cheio de mato seco, surgiu uma construção.

Não era uma construção comum. Ela parecia ter brotado do chão num piscar de olhos. Era uma loja pequena e torta, com telhado em forma de chapéu de mago e paredes pintadas em listras de rosa-choque e azul-celeste. Uma chaminé torta soltava bolhas de sabão que cheiravam a baunilha, e uma placa de neon piscava acima da porta, mesmo sob a luz forte do meio-dia:

“Sorveteria Nebulosa & Delícias Eternas”

Téo e Marina trocaram um olhar incrédulo. Esqueceram o calor, o cansaço e os picolés derretidos. Correram em direção à loja.

Ao abrirem a porta, um sino tocou, não com um som metálico, mas com o som de uma risada de bebê. O interior era deliciosamente frio, como se um ar-condicionado gigante estivesse ligado no máximo, mas sem o barulho de motor. O chão era feito de vidro transparente, e abaixo dele parecia correr um riacho de água cristalina.

Atrás de um balcão feito de algo que parecia biscoito waffle gigante, estava um senhor baixinho. Ele usava um terno roxo aveludado, uma gravata borboleta amarela e tinha um bigode branco tão grande e enrolado que parecia feito de chantilly.

— Bem-vindos, viajantes do calor! — saudou ele, curvando-se. — Eu sou o Sr. Gelatti. E vocês chegaram bem a tempo para a primeira fornada… digo, a primeira “gelada” do dia.

— Quanto custa o sorvete? — perguntou Téo, tateando o bolso em busca de moedas. — Só tenho dois reais.

O Sr. Gelatti riu, e o som fez os potes de vidro nas prateleiras vibrarem. — Dinheiro? Oh, não, meu jovem. Na Sorveteria Nebulosa, a moeda é diferente. Eu aceito uma memória feliz, um sonho engraçado ou uma promessa de aventura.

Marina, sempre a mais corajosa, deu um passo à frente. — Eu prometo que vou aprender a andar de bicicleta sem as mãos nestas férias.

Os olhos do Sr. Gelatti brilharam. — Excelente pagamento! Para você, minha querida, a especialidade da casa: “Voo de Framboesa com Granulado de Coragem”.

Ele serviu uma bola de sorvete que mudava de cor, passando do rosa para o dourado. Assim que Marina deu a primeira lambida, seus pés saíram do chão. Ela flutuou a trinta centímetros do solo, rindo de surpresa. O gosto, segundo ela, era de “vento no rosto e vitórias”.

Téo, maravilhado, ofereceu sua moeda: — Eu lembro de quando meu avô me ensinou a pescar e a gente riu porque pescamos uma bota velha.

— Ah, memórias de família! As mais saborosas — disse o sorveteiro. — Para você, “Chocolate da Gargalhada Infinita com Calda de Abraço”.

O sorvete de Téo era escuro e denso, mas quando ele provou, sentiu um calor reconfortante no peito e uma vontade incontrolável de sorrir. E o mais estranho: por mais que ele lambesse, a bola de sorvete não diminuía.

— Esse é o segredo — piscou o Sr. Gelatti. — Enquanto a felicidade durar, o sorvete nunca acaba.

A notícia correu pela cidade mais rápido que gelo derretendo na calçada. Em poucas horas, a fila da Sorveteria Nebulosa dobrava o quarteirão. E algo mágico começou a acontecer em Vila Girassol.

O Sr. Rabugento, o vizinho que nunca devolvia as bolas de futebol que caíam no seu quintal, provou o sabor “Menta da Paciência”. De repente, ele foi visto devolvendo não só as bolas, mas também oferecendo limonada para as crianças.

A Dona Gertrudes, que vivia reclamando de dores nas costas, tomou uma taça de “Baunilha da Juventude Saltitante” e foi flagrada pulando corda na praça central.

Até o prefeito, que estava sempre estressado e gritando ao telefone, experimentou o “Sorbet de Silêncio do Lago” e decretou que aquela tarde seria feriado municipal para “apreciação de nuvens”.

O verão, antes insuportável, tornou-se lendário. Não importava o calor lá fora; todos andavam com casquinhas que nunca derretiam e nunca acabavam, desde que compartilhassem gentilezas. As brigas na cidade desapareceram. Afinal, era difícil discutir quando se estava flutuando levemente ou soltando pequenas bolhas de sabão pela boca a cada frase (efeito colateral do sabor “Chiclete Tagarela”).

Téo e Marina iam à sorveteria todos os dias. Eles provaram sabores como “Pôr do Sol Caramelizado”, que fazia seus olhos brilharem no escuro, e “Torta de Limão da Invisibilidade”, que funcionava por apenas cinco minutos, tempo suficiente para pregar peças inofensivas.

Mas, como todas as coisas mágicas, havia uma regra.

— O verão não dura para sempre, crianças — disse o Sr. Gelatti numa tarde de domingo, no final de fevereiro. As aulas começariam no dia seguinte. — E a magia do sorvete precisa viajar. Há outras cidades derretendo de calor e tédio por aí.

Téo sentiu um aperto no coração. O sorvete em sua mão, pela primeira vez em semanas, começou a diminuir. — O senhor vai embora?

— A loja vai — disse o Sr. Gelatti, limpando o balcão. — Mas o que vocês ganharam, fica.

— Mas o sorvete vai acabar! — lamentou Marina, olhando para sua casquinha que agora estava vazia.

O Sr. Gelatti saiu de trás do balcão e ajoelhou-se na altura deles. — O sorvete infinito não estava na casquinha, meus jovens. Estava na diversão. Vocês repararam? Vocês não passaram o verão reclamando ou trancados em casa. Vocês brincaram, riram, fizeram as pazes com vizinhos e criaram histórias. O sorvete foi apenas o empurrãozinho. A magia… bem, a magia foram vocês quem fizeram.

Ele entregou a cada um uma pequena colher dourada, com o formato de uma estrela na ponta. — Para lembrarem que a vida pode ser doce, mesmo sem mágica.

Na manhã seguinte, quando Téo e Marina correram até a esquina da Rua das Acácias, o terreno estava vazio. O mato alto tinha voltado, e não havia sinal das paredes listradas ou do cheiro de baunilha.

Por um momento, a tristeza bateu. O sol já estava quente de novo.

— Acabou — disse Téo, chutando uma pedrinha.

Marina olhou para a colher dourada que ela havia pendurado em um cordão no pescoço. Ela sorriu e deu um empurrãozinho no ombro do amigo. — Não acabou não. Tenho uma ideia. Vamos tentar fazer nosso próprio sorvete? Minha mãe comprou morangos.

Téo olhou para a amiga, depois para o céu azul. Ele se lembrou do gosto do “Chocolate da Gargalhada”. — Só se a gente inventar um nome bem legal. Que tal “Morango da Aventura”?

Eles correram rindo pela rua, deixando o terreno vazio para trás. O Sr. Gelatti tinha razão. A sorveteria tinha ido embora, mas o verão mágico tinha deixado algo que nunca derreteria: a certeza de que a alegria é um ingrediente que a gente mesmo pode criar.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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