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A Expedição das Formigas Exploradoras

Historinha A Expedição das Formigas Exploradoras

No Reino Subterrâneo do Carvalho Velho, a vida seguia um ritmo frenético e perfeitamente organizado. Milhares de patas minúsculas batiam contra o chão de terra batida dos túneis, criando uma vibração constante que soava como uma música de trabalho. Para uma formiga comum, a vida se resumia a carregar folhas, limpar túneis ou cuidar dos bebês-larvas.

Mas Zico não era uma formiga comum.

Zico era um operário ligeiramente menor que a média, mas com antenas que vibravam mais rápido do que as de qualquer outro. Enquanto a maioria das formigas olhava para o chão, procurando migalhas, Zico olhava para a “Luz da Entrada”, o buraco no teto do formigueiro que levava ao Grande Mundo Superior.

A Rainha-Mãe havia emitido um comunicado preocupante naquela manhã: os estoques de cogumelos estavam baixos e as folhas de roseira, que eram a base da alimentação do fungo real, tinham secado. Era preciso encontrar uma nova fonte de alimento. E precisava ser algo grande. Algo doce. Algo que garantisse o inverno de todo o formigueiro.

— Eu vou — disse Zico, erguendo uma pata diante do Conselho das Anciãs.

Um murmúrio percorreu o salão. — O Grande Mundo Superior é perigoso, Zico — disse a Anciã Mestra, uma formiga cujas mandíbulas já estavam cinzentas de idade. — Existem os Pássaros-Sombra, os Tamanduás-Língua-de-Cola e o pior de todos: O Aspersor de Água, que cria tempestades num dia de sol.

— Eu serei cuidadoso — insistiu Zico. — Mas não posso ir sozinho.

Foi assim que a Tropa Alfa foi formada. Além de Zico, o visionário, juntaram-se a ele três voluntários improváveis:

  1. Goliath: A maior formiga soldado do formigueiro. Ele tinha mandíbulas que podiam cortar um graveto ao meio, mas um coração mole que o fazia parar para conversar com joaninhas.

  2. Tina: Uma formiga operária conhecida por sua velocidade. Dizia-se que ela conseguia correr de uma ponta a outra do túnel principal antes que uma gota de orvalho caísse no chão.

  3. Beto: O “cientista”. Beto tinha uma habilidade única de cheirar o ar e identificar coisas a quilômetros de distância. Ele usava um pedacinho de casca de noz na cabeça como capacete.

A missão era clara: Cruzar o “Deserto de Cimento” (a calçada), atravessar a “Floresta de Grama Alta” (o jardim) e investigar o rumor de uma “Montanha Vermelha” que exalava um cheiro doce, trazido pelo vento do norte.

A saída do formigueiro foi solene. Ao colocarem as patas no mundo exterior, a luz do sol os cegou momentaneamente. O mundo era imenso. Uma simples folha caída parecia um telhado; uma pedrinha parecia uma montanha intransponível.

— Formação de Diamante! — ordenou Zico. — Goliath na retaguarda, Tina nos flancos, Beto no centro para farejar o caminho. Eu vou na ponta.

A travessia do Deserto de Cimento foi quente. O sol aquecia as pedras cinzentas, fazendo as patas das formigas arderem. — Estamos quase lá — ofegou Goliath, carregando suprimentos de água (duas gotas de orvalho enroladas em folhas de trevo). — Só mais cinquenta passos de formiga.

Ao chegarem à Floresta de Grama Alta, a temperatura caiu. As lâminas de grama subiam como arranha-céus verdes ao redor deles, bloqueando o sol e criando um labirinto de sombras. O cheiro ali era de terra úmida e vida selvagem.

— Parem! — sussurrou Beto, suas antenas tremendo freneticamente.

— O que foi? — perguntou Tina, parando tão rápido que quase derrapou.

— Vibração — disse Beto. — Algo grande se aproxima. Não é um Pássaro-Sombra. É algo… subterrâneo que veio à tona.

O chão começou a tremer. A terra à frente deles se estufou e explodiu. Uma criatura cilíndrica, rosada e gigantesca emergiu, contorcendo-se lentamente. Era uma Minhoca. Para um humano, inofensiva. Para Zico e sua equipe, era como estar diante de um dragão sem olhos.

— Não se mexam — sussurrou Zico. — Ela não nos vê. Ela sente vibração. Se ficarmos parados, somos invisíveis.

A Minhoca, que devia ter o tamanho de mil formigas enfileiradas, passou lentamente, abrindo um novo túnel na terra. O som de seu corpo arrastando na lama era ensurdecedor. Quando ela finalmente sumiu de volta para a terra, deixando um rastro de lama fresca, a equipe soltou a respiração que nem sabia que estava segurando.

— Isso foi… incrível! — exclamou Goliath. — O tamanho dela! Imaginem quanta terra ela move!

— Foco, equipe — disse Zico, embora seu próprio coração estivesse disparado. — O cheiro doce. Ainda está lá, Beto?

Beto ergueu a cabeça, ajustando seu capacete de casca de noz. — Sim. Mais forte. Estamos perto. Muito perto.

Eles marcharam por mais alguns minutos, desviando de raízes e saltando sobre poças deixadas pelo orvalho da manhã. De repente, a Floresta de Grama terminou e eles chegaram a uma clareira.

E lá estava ela. A lenda era real.

Diante deles, caída sobre a terra preta e fofa, estava a Montanha Vermelha.

Era um morango. Mas não um morango qualquer. Era um gigante, maduro, vermelho-rubi, coberto por pequenas sementes que pareciam pedras douradas encrustadas na montanha. O cheiro era tão doce e intenso que as antenas de Tina começaram a girar sozinhas de felicidade. Havia uma pequena “caverna” na lateral do morango, onde algum passarinho já havia dado uma bicada, revelando a polpa branca e suculenta por dentro.

— Pelas antenas da Rainha… — murmurou Goliath. — Isso alimenta o formigueiro por uma estação inteira!

— É açúcar puro! — analisou Beto. — Energia concentrada. Precisamos levar isso para casa.

Mas então, surgiu o problema. A Montanha Vermelha era, bem, uma montanha. Quatro formigas, por mais fortes que fossem, não podiam carregar um morango inteiro.

— O que faremos, Zico? — perguntou Tina. — Não podemos arrastar isso. E se voltarmos para chamar ajuda, os Besouros Blindados podem encontrar a fruta antes de nós.

Zico olhou para o morango, depois para seus amigos, e depois para o terreno ao redor. Ele viu uma folha larga e seca caída perto dali. Viu um graveto longo. E viu que o terreno tinha uma leve inclinação em direção ao Deserto de Cimento.

— Nós não precisamos carregar a montanha — disse Zico, com um brilho nos olhos compostos. — Nós precisamos fazê-la rolar.

Sob a liderança de Zico, a operação começou. Era um trabalho de engenharia. Goliath usou sua força bruta para cavar sob o morango, removendo as pedrinhas que o prendiam no lugar. Tina correu para limpar o caminho à frente, removendo galhos e folhas que pudessem travar a fruta. Beto calculou o ângulo. — Precisamos empurrar a 45 graus para a esquerda, Zico! Se for reto, ele bate na raiz do dente-de-leão!

— Todos juntos! — gritou Zico. — Um, dois, três e… EMPURREM!

As quatro formigas apoiaram seus ombros contra a casca vermelha e rugosa da fruta. Elas empurraram até suas patas escorregarem na terra. O morango rangeu. Balançou. E então… Tump. Rolou uma vez. Tump, tump. Rolou duas vezes.

E então, a gravidade fez o resto. A Montanha Vermelha começou a ganhar velocidade, descendo a leve inclinação da clareira.

— Corram atrás dela! — gritou Tina, disparando na frente.

Foi a corrida mais emocionante de suas vidas. O morango rolava, esmagando pequenas ervas daninhas, enquanto as quatro formigas corriam ao lado, guiando-o como pastores guiando uma ovelha gigante e rebelde.

Quando chegaram ao Deserto de Cimento, o morango parou. Eles estavam na metade do caminho. O sol estava se pondo e o céu ficou laranja. Mas eles tinham conseguido tirar o tesouro da floresta perigosa.

Porém, o perigo final ainda aguardava. Uma sombra longa cobriu o grupo.

Um Louva-a-deus. Verde, imóvel, com seus braços serrilhados em posição de oração, bloqueava o caminho entre o morango e a entrada do formigueiro. Ele olhou para as formigas, e depois para a fruta.

Goliath deu um passo à frente, abrindo suas mandíbulas. Ele estava pronto para lutar, mesmo sabendo que não tinha chance.

Mas Zico interveio. — Espere, Goliath.

Zico subiu no topo do morango. Ele olhou nos olhos gigantes e multifacetados do Louva-a-deus. O predador inclinou a cabeça, curioso com a audácia daquela pequena refeição.

Zico usou suas antenas para fazer sinais. Ele apontou para a parte do morango que já estava bicada e aberta. Depois apontou para o Louva-a-deus.

O inseto gigante entendeu. Ele não queria comer as formigas duras e crocantes. Ele queria o doce. O Louva-a-deus aproximou-se e, com uma delicadeza surpreendente, comeu um pedaço da polpa exposta do morango. Satisfeito com o açúcar, ele limpou as patas, fez um movimento que parecia uma reverência e saiu do caminho, voando para longe.

— Você… você negociou com ele? — perguntou Beto, incrédulo.

— Às vezes — disse Zico, descendo da fruta — é melhor dividir o tesouro e sobreviver do que tentar ficar com tudo e perder a vida.

Com o caminho livre, eles empurraram o morango o resto do trajeto.

A chegada ao formigueiro foi triunfal. As sentinelas deram o alarme, não de perigo, mas de alegria. Centenas de irmãs saíram para ajudar a puxar e cortar pedaços da fruta. A Rainha veio pessoalmente ver a descoberta.

Naquela noite, houve um banquete no Reino Subterrâneo. O cheiro de morango encheu os túneis, trazendo sonhos doces para as larvas e energia para os trabalhadores.

Zico, Goliath, Tina e Beto sentaram-se em um túnel superior, olhando para a lua através da entrada. Estavam exaustos, sujos de terra e suco vermelho, e com as patas doloridas.

— O que vamos encontrar amanhã? — perguntou Tina, bocejando.

Zico sorriu. — O mundo é muito grande, Tina. Ouvi dizer que, depois do Deserto de Cimento, existe o “Vale das Latas de Lixo”. Dizem que lá existem tesouros que brilham como o sol.

— Conte comigo — disse Goliath. — E comigo — disse Beto.

E assim, enquanto o formigueiro celebrava, os quatro exploradores adormeceram, sabendo que a verdadeira aventura não era apenas o que eles encontravam, mas o fato de que encontravam juntos.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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