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A Lagarta e a Montanha de Açúcar

Historinha A Lagarta e a Montanha de Açúcar

No vasto mundo do Jardim dos Fundos, onde as folhas de couve pareciam guarda-sóis gigantes e as gotas de orvalho eram do tamanho de bolas de cristal, vivia Lino.

Lino era uma lagarta verde e felpuda, pequena até mesmo para os padrões das lagartas. Enquanto as outras lagartas passavam o dia inteiro mastigando a mesma folha de amora onde nasceram, Lino passava o dia na ponta do galho mais alto, olhando para o horizonte. Ele sonhava com algo mais do que folhas verdes e amargas. Ele sonhava com a Lenda do Doce Infinito.

As borboletas mais velhas, que visitavam o jardim de vez em quando, contavam histórias sobre a “Toalha Xadrez”, um reino místico que aparecia raramente, onde gigantes humanos deixavam para trás tesouros de sabor inigualável.

Certa tarde, um vento forte trouxe um aroma diferente para a folha de Lino. Não cheirava a terra molhada, nem a flores. Cheirava a… baunilha, morango e glacê real.

— Vocês sentiram isso? — perguntou Lino, erguendo suas anteninhas.

As outras lagartas nem pararam de mastigar. — É só o vento, Lino. Coma sua folha — resmungou uma lagarta rechonchuda chamada Gorducho.

Mas Lino sabia que não era só o vento. Ele olhou para baixo, através dos galhos, e viu, longe, perto da Grande Cerca de Madeira, algo colorido estendido na grama. Era vermelho e branco, quadriculado. E no centro daquilo, brilhando sob o sol da tarde, havia uma estrutura branca, alta e majestosa.

A Montanha de Açúcar. Um cupcake esquecido.

Lino sabia que aquela era sua chance. Mas a jornada da Roseira até a Grama Alta era perigosa. — Eu vou até lá — anunciou Lino.

— Você vai ser comido por um passarinho antes de chegar ao chão — disse Gorducho.

— Talvez — respondeu Lino, ajustando sua “mochila” (que era apenas uma pétala de flor enrolada). — Mas prefiro tentar a ficar aqui comendo couve para sempre.

Lino não partiu sozinho. Tico-Tico, um besouro rola-bosta muito forte e incrivelmente otimista (apesar de sua profissão duvidosa), ouviu a conversa e se ofereceu para ir junto. — Eu posso empurrar qualquer obstáculo do caminho! — disse o besouro, estufando o peito blindado.

E, de última hora, apareceu Zizi, uma joaninha que tinha perdido três de suas pintinhas e, por isso, se sentia meio deslocada entre as outras joaninhas perfeitas. — Eu posso voar curtas distâncias e fazer reconhecimento aéreo — disse ela timidamente.

A “Comitiva do Cupcake” desceu pelo tronco da roseira. A descida foi fácil. O problema começou quando suas patas tocaram a “Floresta de Grama”.

Para um humano, a grama é um tapete macio. Para Lino, era uma selva densa e úmida, onde cada talo de grama era uma árvore e cada sombra podia esconder um monstro.

— Sigam-me! — disse Tico-Tico, abrindo caminho através de folhas secas com sua cabeça dura.

A primeira hora de viagem foi tranquila. Mas então, eles chegaram ao Rio de Lama. Alguém tinha deixado a mangueira ligada um pouco, e uma poça enorme bloqueava o caminho.

— Eu posso voar para o outro lado — disse Zizi. — Mas não consigo carregar vocês.

Lino olhou para a água barrenta. — Precisamos de uma ponte.

Eles encontraram um galho seco. Tico-Tico empurrou o galho com toda a sua força, enquanto Lino e Zizi orientavam a direção. Com um plaft suave, o galho caiu sobre a poça, criando uma travessia perfeita.

Mas, no meio da travessia, uma sombra cobriu o grupo. Um Sapo.

Ele estava sentado na outra margem, imóvel como uma pedra coberta de verrugas. Seus olhos dourados giraram lentamente, focando em Lino, que era o mais suculento do grupo.

— Congelem — sussurrou Lino. — O movimento atrai a língua.

O sapo coaxou, inflando o papo. Ele parecia entediado, mas com fome. A língua rosada começou a aparecer na ponta da boca.

— Ele vai atacar! — gritou Zizi.

— Tico-Tico, tem alguma coisa na sua… “bagagem”? — perguntou Lino, referindo-se à bola de “material orgânico” que o besouro sempre rolava por aí (e que, felizmente, ele tinha deixado para trás para a viagem, mas ainda tinha o cheiro).

— Não, mas eu sei fazer uma coisa! — disse o besouro.

Tico-Tico correu na direção do sapo, não para atacar, mas para fazer o que besouros fazem quando assustados: ele liberou um cheiro terrível, um gás de defesa químico.

O sapo, que tinha um olfato muito sensível, fez uma careta (se é que sapos fazem caretas), fechou os olhos e deu um pulo gigante para trás, mergulhando na água longe deles.

— Ugh! — tossiu Zizi. — Isso foi nojento, Tico-Tico!

— Mas salvou nossas vidas! — riu o besouro. — De nada, pessoal.

Eles correram para a terra firme e continuaram. O sol começava a baixar, pintando o céu de laranja. Eles estavam cansados, com fome e suas muitas pernas doíam.

Finalmente, a grama acabou. Diante deles, estendia-se o “Deserto Quadriculado”. A toalha de piquenique.

Era macia, feita de tecido, e cheirava a pão e suco de uva. E lá, no centro, erguia-se a Montanha de Açúcar. Era um cupcake de baunilha com uma cobertura branca alta e espiralada, salpicada de confeitos coloridos.

Lino sentiu lágrimas em seus olhos compostos. Era a coisa mais linda que ele já tinha visto.

Mas havia um guardião final.

Não era um monstro. Era uma Muralha. O cupcake estava dentro de uma forminha de papel plissado, alta e escorregadia. Para Lino, era como tentar escalar um prédio de vidro.

— Eu tento voar até o topo — disse Zizi. Ela bateu as asas com força e subiu. Mas o vento no topo da toalha era forte. Zizi foi jogada para longe duas vezes antes de conseguir pousar na borda do papel.

— Lino! Tico-Tico! — gritou ela lá de cima. — É muito liso! Vocês não vão conseguir subir!

Lino tocou a parede de papel. Era impossível escalar. Suas patinhas escorregavam. Tico-Tico tentou empurrar a base para derrubar o cupcake, mas era pesado demais até para ele.

Eles tinham viajado tudo aquilo para falhar no último centímetro?

Lino olhou ao redor. Ele viu um canudo de plástico esquecido na toalha, com uma gotinha de suco na ponta.

— Tico-Tico, o canudo! — disse Lino.

O besouro entendeu imediatamente. Com sua superforça, ele rolou o canudo até a base do cupcake. Lino subiu no canudo, mas ele ainda não alcançava o topo.

— Precisamos de contrapeso! — gritou Lino.

Tico-Tico subiu na outra ponta do canudo. O peso do besouro fez a ponta de Lino levantar, como uma gangorra. Lino foi erguido no ar.

— Agora, Zizi! — gritou Lino.

A joaninha, lá do alto da borda do papel, esticou suas patinhas. Lino esticou todo o seu corpo comprido de lagarta. Foi um momento de tensão absoluta. Se Lino caísse, se machucaria feio.

As patinhas de Zizi agarraram as de Lino. Com um esforço tremendo, batendo as asas furiosamente para ajudar, ela puxou a lagarta para cima da borda.

Lino rolou para dentro, caindo suavemente sobre… a cobertura.

Era macio como uma nuvem. E doce. Oh, tão doce.

— Tico-Tico! — chamou Lino.

Ele e Zizi olharam para baixo. O besouro estava lá embaixo, olhando para cima com tristeza. Ele não conseguia subir.

— Podem comer — gritou Tico-Tico. — Eu fico de guarda aqui embaixo. Alguém tem que garantir que as formigas não venham.

Lino olhou para a montanha de açúcar. Depois olhou para o amigo. — Não — disse Lino. — Ninguém fica para trás.

Lino começou a fazer algo que as lagartas fazem muito bem. Ele começou a tecer. Ele não era uma aranha, mas lagartas produzem seda para fazer casulos. Lino trabalhou rápido, gastando suas energias, criando um fio longo e pegajoso. Ele prendeu uma ponta num confeito firme e jogou a outra ponta para baixo.

— Segure firme, Tico! — gritou Lino.

O besouro agarrou o fio de seda. Lino e Zizi puxaram com todas as forças. O besouro era pesado, mas a amizade deles era mais forte. Centímetro por centímetro, Tico-Tico subiu a parede escorregadia até ser puxado para o topo da montanha.

Os três amigos, exaustos, deitaram-se na cobertura branca.

O primeiro pedaço que Lino comeu foi indescritível. Não era amargo como couve. Era uma explosão de energia e alegria. Tico-Tico comeu um confeito azul inteiro. Zizi lambeu o glacê até ficar com o rosto branco.

Eles comeram até não aguentarem mais. O sol se pôs, e as estrelas surgiram. Eles estavam no topo do mundo, na montanha mais doce que existia.

— Sabe — disse Lino, olhando para as estrelas, com a barriga cheia e o coração feliz —, a melhor parte não é o açúcar.

— Não? — perguntou Tico-Tico, arrotando educadamente.

— Não — sorriu a lagarta. — A melhor parte é que agora eu tenho uma história para contar. Uma história nossa.

Alguns dias depois, quando voltaram para a folha de couve, Lino já não era o mesmo. Ele estava maior, mais forte, e seus olhos brilhavam. As outras lagartas duvidaram da história, é claro.

Mas então, Lino começou a mudar. Ele teceu seu casulo. E quando ele saiu de lá, semanas depois, ele não era uma borboleta comum. Suas asas tinham um brilho especial, um tom de branco perolado que lembrava muito… cobertura de açúcar.

E sempre que Lino voava sobre o jardim, Tico-Tico (que agora era o chefe da guarda dos besouros) e Zizi (que era a líder das exploradoras aéreas) olhavam para cima e sorriam, lembrando-se da grande expedição à Montanha de Açúcar.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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