Aventura

A Borboleta que Voou Contra o Vento

Historinha A Borboleta que Voou Contra o Vento

No Prado das Flores Dançantes, a vida era um eterno balé de cores. Havia abelhas zumbindo em tons de amarelo e preto, joaninhas vermelhas como pequenos botões polidos e, claro, as borboletas. Entre todas elas, destacava-se Bela.

Bela era uma borboleta Monarca, com asas de um laranja vibrante, desenhadas com linhas negras elegantes e pontinhos brancos nas bordas. Ela não era a maior borboleta do prado, nem a mais rápida. Na verdade, a asa esquerda de Bela tinha uma pequena falha, uma curvatura ligeira que fazia seu voo ser um pouco mais ondulado do que o das outras. Alguns diziam que ela dançava com o vento, em vez de apenas voar através dele.

O melhor amigo de Bela não podia voar. Ele mal podia correr. Era Sebastião, um caracol de jardim com uma concha rajada de marrom e creme, que ele polia meticulosamente todas as manhãs com o orvalho.

A amizade deles era curiosa. Bela vivia no ritmo do segundo, flutuando de flor em flor. Sebastião vivia no ritmo da hora, levando uma manhã inteira para atravessar uma folha de couve. Mas eles se entendiam. Bela pousava perto dele e contava sobre as cores do mundo visto de cima, e Sebastião contava sobre os segredos das raízes e a textura da terra úmida.

Numa tarde de final de verão, o céu, que era de um azul de ovo de tordo, começou a mudar. Nuvens pesadas, cor de chumbo e carvão, aglomeraram-se no horizonte. O ar ficou parado e pesado, e o cheiro doce das flores foi substituído pelo cheiro metálico de chuva iminente.

Os animais do prado sabiam o que aquilo significava. As formigas marcharam em fila dupla para o formigueiro. As abelhas voaram zunindo para a colmeia. As outras borboletas procuraram abrigo sob as folhas largas das bananeiras ornamentais do jardim vizinho.

Bela encontrou um local seguro sob a varanda de uma casa velha de madeira. Ela estava prestes a fechar as asas e descansar quando se lembrou.

— Sebastião!

Naquela manhã, Sebastião havia lhe dito que iria até a “Pedra Grande” na beira do riacho. Era o lugar favorito dele para encontrar musgo fresco. Mas a Pedra Grande ficava na parte mais baixa do prado. Quando chovia forte, o riacho sempre transbordava e cobria a pedra completamente.

— Ele não vai ter tempo de voltar — sussurrou Bela, suas antenas tremendo de preocupação.

Um trovão retumbou, sacudindo o chão. O primeiro vento da tempestade chegou, não como uma brisa gentil, mas como um gigante invisível soprando com raiva. As folhas das árvores viraram do avesso.

— Você não pode ir lá fora! — gritou uma mariposa cinzenta que também se abrigava ali. — Você é leve como uma pluma. O vento vai rasgar suas asas!

Bela olhou para a tempestade crescente. Ela sentiu medo. Suas asas pareciam feitas de papel de seda diante daquela fúria da natureza. Mas então ela pensou em Sebastião, pequeno e lento, sozinho na beira da água que subia.

— Ele é meu amigo — disse Bela simplesmente.

E então, ela fez o impensável. Ela se lançou para fora do abrigo seguro.

O mundo lá fora era um caos. O vento a atingiu como uma parede sólida. No instante em que abriu as asas, Bela foi jogada para trás, rodopiando sem controle. Era como tentar nadar em uma cachoeira que subia.

— Concentre-se, Bela — disse ela para si mesma.

Ela sabia que não podia voar alto; lá em cima a força do vendaval era imbatível. Ela precisava voar baixo, rente ao chão, usando a grama alta como escudo.

A jornada foi brutal. Cada batida de asa exigia toda a sua energia. Ela avançava um metro, o vento a empurrava meio metro para trás. Sua asa esquerda, a que tinha a pequena falha, doía com o esforço extra para mantê-la reta.

Então, a chuva começou. Não eram gotinhas suaves. Para uma pequena borboleta, cada pingo de chuva era como um balão de água explodindo sobre sua cabeça. Se suas asas ficassem encharcadas, ela cairia e não conseguiria levantar voo novamente.

Bela voava em zigue-zague, desviando das gotas gigantes como uma acrobata aérea. Ela usava as rajadas de vento a seu favor quando podia, surfando nas correntes de ar turbulentas, sua asa “defeituosa” ajudando-a a fazer curvas fechadas que as outras borboletas não conseguiriam.

Finalmente, ela viu o riacho. O que antes era um fio de água tranquilo agora era um rio marrom e espumante, rugindo enquanto subia pelas margens.

E lá estava Sebastião. Ele estava no topo da Pedra Grande, que agora parecia uma ilha minúscula cercada pela água furiosa. Ele estava recolhido dentro de sua concha, tremendo, enquanto a água lambia a base da pedra. Mais alguns minutos, e ele seria levado.

Bela pousou na pedra, ofegante, suas cores vibrantes apagadas pela falta de luz.

— Sebastião! Acorde! — ela gritou sobre o som do vento.

O caracol colocou os olhos para fora da concha. — Bela? O que você está fazendo aqui? Você vai morrer!

— Nós vamos sair daqui. Mas você precisa ser rápido. O mais rápido que já foi na vida.

Bela olhou em volta. Ela não podia carregar Sebastião. Mas, preso entre duas raízes na margem, balançando com a correnteza, estava um pedaço grande e curvado de casca de árvore, parecendo uma pequena canoa.

— Sebastião, escute. Quando eu der o sinal, você precisa deslizar para aquela casca de árvore.

— Eu tenho medo da água! — choramingou o caracol.

— Confie em mim!

Bela voou até a casca de árvore. Estava presa por um fiapo de raiz. Ela precisava soltá-la. A borboleta pousou na raiz e começou a puxar, empurrar, bater suas asas com uma fúria que ela não sabia que possuía. O vento uivava, tentando arrancá-la dali, mas Bela segurou firme.

Com um estalo, a raiz se partiu. A “canoa” de casca de árvore soltou-se e girou em direção à pedra.

— AGORA, SEBASTIÃO!

Sebastião, reunindo toda a coragem que seu pequeno corpo mole possuía, lançou-se da pedra. Ele aterrissou com um baque suave dentro da casca de árvore curvada. Bela pousou logo atrás dele, exausta, suas asas tremendo incontrolavelmente.

A correnteza pegou o barco improvisado. Foi uma viagem selvagem, girando e balançando pelas águas turbulentas, desviando de galhos caídos. Bela e Sebastião se seguraram um ao outro no fundo da casca.

Finalmente, a correnteza os empurrou para uma área alagada de juncos altos, onde a água era calma. O barco de casca parou suavemente na lama.

Eles estavam a salvo.

A tempestade durou a noite toda, mas eles permaneceram abrigados entre os juncos. Quando a manhã chegou, o sol nasceu glorioso, fazendo o mundo molhado brilhar como se estivesse coberto de diamantes.

O nível da água havia baixado. Sebastião saiu de sua concha e olhou para Bela. A borboleta estava secando suas asas ao sol. As bordas de suas belas asas laranjas estavam rasgadas e desgastadas pelo vento forte. A pequena curvatura em sua asa esquerda parecia mais pronunciada agora.

— Suas asas… — disse Sebastião, com a voz embargada. — Elas estragaram por minha causa.

Bela abriu as asas lentamente, testando-as. Ela levantou voo. Foi um voo um pouco mais torto, um pouco mais lento do que antes, mas ela estava voando.

— Elas não estão estragadas, Sebastião — disse Bela, pousando suavemente na concha do amigo. — Elas apenas contam a história de como eu enfrentei a tempestade pelo meu melhor amigo. E acho que isso as torna mais bonitas do que antes.

Sebastião sorriu, uma coisa rara para um caracol. E enquanto voltavam lentamente para o prado — Sebastião deslizando na lama fresca e Bela voando em seu ritmo ondulado logo acima dele — todos os animais que saíam de seus abrigos paravam para olhar.

Eles não viam apenas uma borboleta com asas rasgadas e um caracol lento. Eles viam os heróis da Grande Tempestade, provando que a força verdadeira não se mede pelo tamanho das asas, mas pelo tamanho do coração.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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