
Muito antes de existirem cidades, carros ou internet, o mundo era um lugar selvagem, vibrante e repleto de criaturas gigantescas. No coração desse mundo ancestral, existia um paraíso escondido chamado Vale das Sombras Longas. Esse nome se devia à enorme montanha que protegia o vale: o Monte Roncador.
O Monte Roncador era um vulcão antigo, mas os dinossauros do vale não tinham medo dele. A montanha estava adormecida há milhares de luas, servindo apenas como um gigante gentil que oferecia terra fértil para as árvores mais altas e sombra fresca durante as tardes quentes de verão.
No vale, vivia um grupo de jovens dinossauros que adorava explorar cada cantinho da floresta:
Rexy: Um jovem Tiranossauro Rex. Apesar de ter uma mordida que poderia quebrar troncos, ele era na verdade um grande estudioso e adorava entender como as coisas funcionavam.
Trixie: Uma Triceratops muito corajosa e especialista em rochas. Ela conhecia o peso, a dureza e a história de cada pedrinha do vale.
Pip: Um Compsognato minúsculo, mas que corria mais rápido que o vento. Ele era o mensageiro oficial da turma.
Brisa: Uma Pteranodonte de asas imensas e olhos afiados, capaz de enxergar uma semente caindo no chão a quilômetros de altura.
A rotina deles era feita de brincadeiras de pega-pega, mergulhos no rio de águas cristalinas e cochilos sob as folhas de samambaia. Mas tudo isso estava prestes a mudar.
O Despertar do Gigante
Tudo começou em uma manhã de quinta-feira, que parecia perfeitamente normal, até que o chão deu um solavanco. Não foi um tremor causado pelos passos pesados de um braquiossauro, mas sim um estrondo profundo que veio de dentro da terra.
Brisa, que estava voando alto, deu um rasante e pousou no meio da clareira, ofegante.
“Gente! Pessoal, ouçam!” gritou Brisa, batendo as asas nervosamente. “O Monte Roncador… ele não está mais roncando de sono. Ele está acordando! Há uma fumaça escura saindo do topo e as pedras estão ficando vermelhas!”
Os dinossauros mais velhos do vale entraram em pânico. O conselho dos anciãos decidiu que todos deveriam arrumar suas folhas e fugir para as planícies distantes. No entanto, Rexy percebeu um grande problema.
“Nós não podemos simplesmente fugir,” disse Rexy, ajustando sua postura para parecer mais sério. “Nossos amigos Estegossauros e os filhotes de Anquilossauro andam muito devagar. A lava os alcançaria antes de chegarem à saída do vale. Precisamos descobrir o que está acontecendo lá em cima e tentar impedir!”
Trixie bateu a pata no chão, levantando poeira. “Rexy tem razão. Vulcões têm canais de escape naturais. Talvez algo esteja bloqueando a saída de ar da montanha. Se liberarmos a pressão, a lava pode escorrer para o outro lado, longe do nosso vale!”
Sem perder tempo, os quatro amigos formaram a Equipe de Resgate do Vale e começaram a subida mais perigosa de suas vidas.
A Subida Perigosa
A jornada montanha acima não era nada fácil. Quanto mais eles subiam, mais quente o ar ficava. O chão cheirava a enxofre, um cheiro que lembrava ovos podres e fazia o pequeno Pip espirrar sem parar.
O primeiro grande desafio foi o Campo dos Gêiseres Saltitantes. Eram buracos no chão que cuspiam água fervente e vapor em jatos altíssimos.
“Como vamos passar por isso?” perguntou Trixie, recuando quando um jato de água quente explodiu perto de seu chifre.
“Deixem comigo!” pipilou Pip. O pequeno e ágil Compsognato correu para frente, observando o ritmo da água. “Eles cospem de três em três segundos! Quando eu gritar, vocês correm!”
Pip se tornou o maestro da travessia. Ele gritava “Agora!”, e os três dinossauros maiores corriam com todas as forças, parando em pedras seguras logo antes da água ferver novamente. Graças à velocidade e aos olhos atentos de Pip, todos passaram sem se queimar.
Mais acima, eles encontraram a Névoa de Cinzas, uma nuvem cinza e espessa que não deixava ninguém enxergar um palmo à frente do focinho.
Desta vez, foi Brisa quem salvou o dia. “Fiquem atrás de mim!”, ela ordenou. Brisa posicionou-se na frente do grupo e começou a bater suas imensas asas com uma força incrível, criando um túnel de vento que empurrou as cinzas para longe e revelou o caminho até o topo.
A Pedra de Obsidiana e a Corrida Contra o Tempo
Quando finalmente chegaram à beira da grande cratera, o cenário era assustador. O fundo do vulcão era um lago de lava laranja e brilhante, que borbulhava e subia rapidamente.
Trixie correu para analisar a borda e logo encontrou o problema. “Olhem ali!” ela apontou com o chifre.
O “Suspiro de Fogo”, um enorme túnel lateral que desviava a lava para o lado deserto da montanha, estava completamente tapado. Uma rocha gigantesca, redonda, preta e brilhante — uma pedra de obsidiana do tamanho de um mamute — havia rolado com os tremores e entalado perfeitamente no buraco. Sem esse respiro, o vulcão ia explodir pelo topo, caindo direto no Vale das Sombras Longas.
“Deixe comigo, eu sou o mais forte!” rugiu Rexy. Ele correu e empurrou a pedra de obsidiana com a cabeça e os ombros. Ele fez tanta força que suas perninhas curtas tremeram, mas a pedra nem se mexeu. Ela era pesada demais.
“O chão está tremendo mais forte!” avisou Brisa, voando em círculos acima do lago de lava. “A lava está quase transbordando! Temos poucos minutos!”
Foi então que Trixie teve uma ideia brilhante. Como uma boa geóloga, ela sabia que a força bruta não era suficiente; eles precisavam de física.
“Rexy, sozinho você não consegue. Mas se usarmos uma alavanca, multiplicamos nossa força!” Trixie correu até a base da rocha. Ela abaixou a cabeça e enfiou seus três chifres fortes no pequeno espaço entre a pedra gigante e o chão. “Pip, cave a terra mole embaixo da pedra para soltá-la um pouco! Brisa, pegue aquela pedra comprida ali e jogue atrás da obsidiana para ela não rolar de volta!”
A equipe entrou em ação perfeitamente sincronizada. Pip cavou tão rápido que parecia um furacão em miniatura, soltando a terra ao redor da rocha. Brisa voou, pegou um tronco petrificado pesado e ficou pronta no ar.
“No três!” gritou Trixie. “Um… dois… TRÊS!”
Trixie levantou a cabeça com toda a sua força de Triceratops, fazendo a rocha balançar. No mesmo segundo, Rexy tomou impulso e bateu o ombro contra o meio da pedra de obsidiana. Brisa soltou o tronco atrás da pedra para criar uma rampa.
Com um som estrondoso de pedra raspando em pedra, a rocha gigante foi desencaixada. Ela rolou pesadamente para o lado.
Imediatamente, um som de “VUSHHHHH” ecoou. O canal lateral estava livre! A lava borbulhante e o gás preso encontraram a saída mais fácil e começaram a escorrer furiosamente pelo túnel lateral, descendo para o lado rochoso e inabitado da montanha, formando uma bela e inofensiva cachoeira de fogo, muito longe do vale.
O Retorno dos Heróis
Os quatro amigos caíram no chão, exaustos, mas felizes, assistindo a pressão do vulcão diminuir e a montanha voltar a respirar calmamente. O estrondo parou, e o chão parou de tremer.
Quando desceram a montanha e retornaram ao Vale das Sombras Longas, foram recebidos com gritos de alegria, trombetas de braquiossauros e muitas folhas doces. Os anciãos, que antes queriam fugir, curvaram-se em agradecimento aos jovens heróis.
Rexy, Trixie, Pip e Brisa sorriram uns para os outros. Eles perceberam que o desastre não foi evitado apenas pelos dentes fortes do T-Rex, ou pelas asas da Pteranodonte, mas sim porque uniram a inteligência, a velocidade, a força e, acima de tudo, o trabalho em equipe. O Monte Roncador voltou a dormir tranquilamente, e a lenda da Missão do Vulcão Adormecido seria contada ao redor das fogueiras do vale para todo o sempre.



