Princesas

A Princesa do Reino Sem Espelhos

Historinha A Princesa do Reino Sem Espelhos

No coração de um vale cercado por montanhas de pico nevado e florestas de um verde esmeralda, existia o reino de Aretusa. Era um lugar famoso por suas tortas de amora, por suas músicas tocadas em flautas de bambu e, principalmente, por uma lei muito antiga e peculiar: em Aretusa, não existiam espelhos.

Não havia vidros prateados nas paredes, nem metais polidos nos escudos dos guardas. Até os lagos e fontes do reino eram encantados por antigas fadas para estarem sempre levemente agitados, de modo que a água nunca formasse uma superfície parada onde alguém pudesse ver seu próprio reflexo.

Diziam as lendas que a Primeira Rainha, uma mulher de sabedoria infinita, baniu os espelhos para que o povo nunca se esquecesse de olhar nos olhos uns dos outros. “Quem passa muito tempo olhando para si mesmo”, dizia a antiga lei, “esquece de ver a beleza do mundo.”

Neste reino vivia a Princesa Elara.

Elara tinha doze anos e uma alma inquieta. Ela adorava subir em árvores, correr descalça na grama molhada e ajudar os padeiros a amassar o pão. Mas, como toda criança que começa a crescer, a dúvida começou a brotar em seu coração como uma pequena erva daninha.

Visitantes de outros reinos passavam por Aretusa. Eram damas com vestidos de seda e cavaleiros com armaduras brilhantes. Certa vez, Elara ouviu uma duquesa estrangeira cochichar para outra: — Pobre menina… Como ela sabe se está apresentável? Como ela sabe se é bonita sem nunca ter visto seu próprio rosto?

Aquelas palavras caíram no coração de Elara como pedras pesadas. Naquela noite, a princesa tocou seu próprio rosto no escuro do quarto. Ela sentiu o nariz (seria grande demais?), sentiu as bochechas (seriam redondas demais?) e passou os dedos pelos cabelos, que estavam sempre embaraçados pelo vento.

— Eu devo ser um monstro — sussurrou ela para o travesseiro. — É por isso que meu pai proíbe os espelhos. Para que eu não me assuste.

A tristeza de Elara cresceu. Ela parou de correr nos jardins. Parou de rir alto. Começou a andar de cabeça baixa, cobrindo o rosto com véus, com medo de que sua feiura ofendesse o mundo. O Rei, percebendo a mudança na filha, tentou consolá-la dizendo que ela era preciosa, mas Elara pensava: “Ele é meu pai, ele tem que dizer isso.”

Decidida a descobrir a verdade, Elara tomou uma decisão perigosa. Ela ouviu falar de uma caverna proibida no alto da Montanha de Cristal, onde, segundo os boatos, existia a Poça da Verdade — a única água no reino que o feitiço das fadas não alcançava.

Numa manhã de neblina, Elara fugiu do castelo.

A subida foi árdua. Os galhos arranhavam seus braços e a lama sujava seu vestido real. Mas ela não se importava. Ela precisava ver. Ela precisava saber.

No meio do caminho, porém, Elara ouviu um gemido baixinho. Debaixo de uma raiz retorcida de carvalho, uma pequena raposa estava presa. A patinha do animal estava presa entre pedras. Elara, que estava com pressa, pensou em seguir em frente. Mas o coração de Aretusa batia forte nela. Ela não conseguia ignorar a dor alheia.

Elara ajoelhou-se na lama. Com força e paciência, ela empurrou as pedras. A raposa, assustada, mordiscou o dedo da princesa, mas Elara não recuou. Ela acariciou o pelo do animal e sussurrou palavras doces até conseguir libertá-lo. A raposinha, livre, lambeu a mão machucada de Elara e correu para a floresta.

Elara sorriu, limpando o sangue do dedo no vestido, e continuou a subir.

Mais à frente, ela encontrou uma senhora idosa carregando um feixe de lenha muito maior que ela. A senhora tropeçou e a lenha caiu espalhada. — Deixe-me ajudar! — gritou Elara. Ela juntou a lenha, amarrou o feixe e, vendo que a senhora estava exausta, carregou a madeira nas próprias costas até a cabana da mulher, desviando muito do seu caminho.

A senhora, que era cega, tocou o rosto de Elara com as mãos enrugadas para agradecer. — Você tem uma presença solar, minha menina — disse a velha. — Obrigada.

Quando Elara finalmente chegou à entrada da Caverna da Montanha de Cristal, o sol já estava se pondo. Ela estava exausta. Seu vestido estava rasgado, seu rosto manchado de lama, seu cabelo cheio de folhas secas e ela cheirava a suor e terra.

— Agora eu vou ver — disse ela, tremendo. — Agora vou ver o desastre que sou.

Ela entrou na caverna. Lá no fundo, havia uma poça de água prateada, parada como vidro. Era o espelho perfeito.

Elara fechou os olhos, respirou fundo e caminhou até a borda. Com o coração batendo na garganta, ela abriu os olhos e olhou para baixo.

O que ela viu a deixou confusa.

Ela viu um rosto sujo, sim. Viu cabelos desgrenhados. Mas, enquanto olhava, a água começou a brilhar de uma forma estranha. A imagem na água mudou. Não mostrava apenas a pele e o osso. Onde havia a mancha de lama em sua bochecha, a água mostrava a paciência que ela teve ao subir a montanha. Onde havia o arranhão no dedo, a água mostrava a imagem da raposinha livre correndo feliz. Nos seus ombros cansados, a água refletia o alívio da senhora cega ao ter ajuda com a lenha. E em seus olhos… ah, seus olhos. No reflexo, eles brilhavam com uma luz dourada e intensa, uma luz feita de pura compaixão e coragem.

Elara não viu se seu nariz era grande ou pequeno. Ela não viu se suas orelhas eram de abano. Ela viu quem ela era.

De repente, uma voz suave ecoou na caverna. Não era uma voz assustadora, mas parecia o som de sinos de vento. Era a Guardiã da Montanha.

— Você veio procurar sua aparência, pequena princesa? — perguntou a voz. — Vim — respondeu Elara. — Mas este espelho está com defeito. Ele mostra coisas que eu fiz, não apenas como eu sou. — Em Aretusa, minha querida, isso é a mesma coisa — explicou a Guardiã. — O espelho comum é um mentiroso. Ele mostra apenas a casca, o embrulho do presente. Ele não mostra o presente em si. Você acha que é bonita ou feia baseada na geometria do seu queixo? A beleza não é uma forma física, Elara. A beleza é o rastro de luz que você deixa por onde passa.

Elara continuou olhando para a água. A menina refletida ali parecia forte. Parecia gentil. Parecia uma rainha.

— Volte para casa — disse a Guardiã. — E se quiser saber se é bonita, não procure vidro. Procure os olhos do seu povo.

Elara desceu a montanha. Enquanto caminhava, a insegurança havia desaparecido. Ela não se importava mais com a lama no vestido.

Quando ela entrou nos portões do castelo, o Rei correu para abraçá-la, chorando de preocupação. Os criados, os guardas e até os padeiros correram para vê-la. — Princesa! Você está bem? — perguntavam.

Elara olhou para eles. Pela primeira vez, ela realmente olhou. Nos olhos do pai, ela viu alívio e um amor infinito. Ela viu o reflexo de uma filha amada. Nos olhos da velha cozinheira, ela viu admiração pela menina corajosa que voltou da floresta. Nos olhos das crianças do pátio, ela viu alegria porque a amiga brincalhona havia retornado.

Em cada par de olhos que encontrava, Elara via uma versão de si mesma. E em todos eles, ela era radiante. Ela percebeu que a duquesa estrangeira estava errada. Os espelhos eram pequenos demais para conter a verdade de uma pessoa.

Daquele dia em diante, a Princesa Elara voltou a correr, a rir e a sujar os pés. Ela nunca mais se preocupou com o formato do seu nariz. Ela cresceu e se tornou a Rainha mais amada da história de Aretusa.

E quando visitantes chegavam e perguntavam: — Majestade, como a senhora arruma seu cabelo sem espelho? Como sabe se a coroa está reta?

A Rainha Elara sorria, um sorriso que iluminava todo o salão, e respondia: — Eu olho para o meu povo. Se eles estão sorrindo, sei que estou resplandecendo. Se eles estão bem cuidados, sei que minha imagem é a de uma boa rainha. Meus atos são meu espelho, e eles nunca mentem.

E assim, no Reino Sem Espelhos, todos aprenderam a lição mais valiosa de todas: que a verdadeira beleza não é algo que se vê quando estamos sozinhos diante de um vidro, mas sim aquilo que se sente quando estamos juntos, cuidando uns dos outros.

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Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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