Princesas

A princesa que se perdeu na floresta proibida

Historinha A princesa que se perdeu na floresta proibida

Era uma vez, num reino chamado Aethelgard, onde o sol parecia brilhar um pouco mais dourado do que em qualquer outro lugar, vivia a Princesa Elara.

Elara não era como as princesas dos livros de contos antigos, que passavam os dias bordando em torres altas esperando serem salvas. Ela tinha joelhos frequentemente ralados de tanto subir nas macieiras mais altas para ver além dos muros do castelo, e suas mãos estavam sempre manchadas de tinta por desenhar mapas de lugares imaginários. Ela amava seu povo e seu pai, o bondoso Rei Theron, mas sentia que havia uma força diferente dentro dela, algo que os bailes e as aulas de etiqueta não conseguiam satisfazer.

Aethelgard era um reino de luz, protegido por uma pedra mágica chamada “Coração do Sol”, que ficava no topo da torre mais alta. Mas, para além dos campos de trigo dourado, erguia-se uma muralha natural de árvores retorcidas, com copas tão densas que pareciam engolir o céu: a Floresta Proibida.

Dizia a lenda que a floresta nem sempre fora má. Séculos atrás, uma sombra antiga havia se instalado lá, alimentando-se do medo das pessoas. Quem entrava, diziam os mais velhos com vozes trêmulas, se perdia não entre as árvores, mas dentro de seus próprios pesadelos.

Um dia, o impensável aconteceu. O Coração do Sol começou a falhar. Sua luz dourada tornou-se um cinza pálido. As colheitas começaram a murchar e um frio úmido, que Aethelgard nunca conhecera, rastejou pelas ruas de pedra. O Rei Theron adoeceu de preocupação, e o medo começou a se espalhar pelo reino como uma névoa.

Elara viu o desespero nos olhos do pai e sentiu o medo no coração do seu povo. Ela sabia, com uma certeza que vinha do fundo da sua alma, que os exércitos do rei não podiam lutar contra aquele frio. Espadas não cortam sombras.

Vasculhando a antiga biblioteca real, Elara encontrou um diário empoeirado da Primeira Rainha. Lá, em letras desbotadas, estava a resposta: “Quando a luz de Aethelgard vacilar, somente o ‘Cristal da Alvorada’, escondido no centro exato da Floresta Proibida, poderá reacender o Coração do Sol. Mas cuidado: a floresta não guarda monstros de dentes e garras, ela guarda os monstros da sua própria mente. Só quem enfrentar seu maior medo sozinho poderá encontrar a luz.”

Elara sabia o que precisava fazer. Naquela noite, enquanto o castelo dormia sob um céu sem estrelas, ela vestiu uma túnica de montaria resistente, pegou uma pequena lanterna de azeite e uma bússola, e escapou pelos portões.

O limite da Floresta Proibida era como uma parede de frio. O ar cheirava a terra úmida e a coisas antigas e esquecidas. Assim que Elara deu o primeiro passo para dentro, o silêncio a envolveu. Não era um silêncio de paz, mas um silêncio de espera.

A princípio, o caminho era apenas difícil. Raízes pareciam tentar tropeçar seus pés e galhos espinhosos puxavam sua capa. Mas, à medida que ela se aprofundava, a floresta começou a mudar.

A luz da sua pequena lanterna parecia diminuir, não por falta de azeite, mas porque a escuridão ao redor era “pesada”. E então, os sussurros começaram.

Eles não vinham de fora, mas de dentro de sua cabeça. Eram vozes frias e sibilantes. — Você é apenas uma menina pequena, — dizia uma voz que soava como sua antiga governanta. — Volte para suas bonecas. Você vai falhar, e todos saberão que a culpa foi sua.

O coração de Elara martelou contra as costelas. Seu maior medo não eram lobos ou ursos. Era o medo de não ser boa o suficiente, o medo de decepcionar aqueles que amava. A floresta sabia disso.

As árvores ao redor começaram a tomar formas assustadoras. Um carvalho retorcido parecia um gigante curvado prestes a agarrá-la. As sombras no chão pareciam buracos sem fundo. Elara sentiu uma vontade avassaladora de chorar, de se encolher e esperar que alguém viesse buscá-la.

Ela parou, tremendo. A lanterna vacilou. As vozes ficaram mais altas. Inútil. Fraca. Sozinha.

Elara fechou os olhos com força. Se ela desse ouvidos ao medo, ela realmente se perderia ali para sempre. Ela pensou em seu pai, pálido em sua cama. Pensou nas crianças da vila que agora sentiam frio.

— Não — ela sussurrou para a escuridão.

Ela abriu os olhos. O carvalho gigante ainda estava lá, mas ela respirou fundo e disse em voz alta: — Você é apenas uma árvore velha. E eu não sou apenas uma menina assustada. Eu sou Elara de Aethelgard, e eu carrego o amor do meu povo comigo.

Ao dizer isso, a chama de sua lanterna pareceu ganhar força. A árvore voltou a parecer apenas madeira inanimada.

Elara continuou a caminhar. A floresta tentou outros truques. Fez com que ela visse caminhos que não existiam, tentando confundi-la. Fez com que ela se sentisse terrivelmente sozinha, como se fosse a última pessoa no mundo.

A cada passo, Elara tinha que escolher a coragem. Ela recitava poemas antigos para preencher o silêncio. Ela se lembrava de cada vez que subiu nas árvores altas, mesmo com medo de cair, só para ver a beleza do horizonte. Ela percebeu que a coragem não era a ausência do medo, mas a decisão de que algo era mais importante do que o medo.

Finalmente, após o que pareceram horas, ou talvez dias, ela chegou a uma clareira no centro da floresta.

Ali, a escuridão era absoluta. Não havia lua, nem estrelas, apenas um vazio aveludado. No centro da clareira, pulsava uma sombra densa, fria e aterrorizante. Era a manifestação pura do medo que governava aquele lugar.

A sombra se ergueu diante dela, sem forma definida, mas irradiando um pavor que fez os joelhos de Elara cederem. A lanterna dela se apagou completamente.

Elara estava na escuridão total, sozinha, diante do coração do medo. A sombra não atacou; ela apenas estava lá, e sua presença fazia Elara sentir que nunca mais seria feliz.

Você não tem nada, — a sombra sussurrou na mente de Elara, e a voz era a sua própria voz, cheia de dúvida. — Você está no escuro, e a escuridão é tudo o que existe.

Elara estava no chão, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela tateou o chão e seus dedos tocaram algo frio e liso, sem querer. Sua bússola. Ela se lembrou de por que estava ali. Ela não estava ali por ela mesma.

E então, uma pequena faísca acendeu dentro do peito de Elara. Não era mágica de fadas. Era a certeza de quem ela era.

Ela se levantou lentamente na escuridão total.

— Você está errada — disse Elara para a sombra, sua voz clara e firme, ressoando na clareira silenciosa. — Eu posso estar no escuro. Mas eu não sou a escuridão.

Ela fechou os olhos e visualizou o rosto do pai sorrindo, o sol dourado sobre os campos de trigo, o abraço quente de sua ama. Ela encheu seu coração com essas memórias de luz.

— Eu sou a filha do Sol, e eu trago a minha própria luz!

No momento em que Elara reivindicou sua força interior, no momento em que ela aceitou seu medo, mas escolheu o amor, algo incrível aconteceu. O peito de Elara começou a brilhar. Uma luz dourada e suave emanou dela, não de uma lanterna, mas de seu próprio ser.

A Sombra guinchou, um som de vento quebrado, e recuou. A luz de Elara não era agressiva; era simplesmente verdadeira. E a sombra, que era feita de mentiras e medos irreais, não podia existir na presença daquela verdade. Ela se dissolveu como fumaça ao vento.

Onde a sombra estava, no chão da clareira, repousava uma pequena pedra que parecia feita de orvalho da manhã solidificado: o Cristal da Alvorada.

Elara pegou o cristal. Ele era frio, mas logo aqueceu em suas mãos.

A volta para casa foi diferente. A floresta ainda era escura e densa, mas as árvores não pareciam mais monstros. O silêncio não era mais opressor, apenas quieto. Elara havia mudado; ela havia olhado para dentro de sua própria escuridão e encontrado sua própria luz, então não havia mais nada na floresta que pudesse assustá-la.

Quando Elara emergiu da linha das árvores, o sol estava nascendo sobre Aethelgard. Ela correu para o castelo, subiu os degraus da torre mais alta e colocou o Cristal da Alvorada ao lado do Coração do Sol que estava morrendo.

Um flash de luz branca cegante explodiu da torre. A onda de calor e brilho varreu o reino, expulsando o frio e a névoa cinzenta. As cores voltaram aos campos e o Rei Theron, em seus aposentos, sentiu a saúde retornar em um suspiro profundo.

Aethelgard estava salva. A Floresta Proibida continuou lá, misteriosa e selvagem, mas não mais maligna, pois sua fonte de medo havia sido quebrada.

Elara nunca contou a ninguém os detalhes do que enfrentou na clareira escura. Algumas batalhas são travadas apenas dentro de nós mesmos. Mas, daquele dia em diante, ela governou ao lado do pai não apenas com bondade, mas com uma sabedoria profunda e corajosa. E ela ficou conhecida para sempre não como a princesa que se perdeu, mas como a Rainha que encontrou a luz na escuridão.

5/5 - (1 voto)

historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

O Que Achou da Historinha?

Botão Voltar ao topo