Princesas

A princesinha que tinha medo do escuro

Historinha A princesinha que tinha medo do escuro

No Reino de Solara, o sol parecia brilhar com mais orgulho do que em qualquer outro lugar do mundo. As torres do castelo eram de ouro polido, as ruas eram de pedras brancas que refletiam a luz, e as pessoas adoravam o dia. Mas ninguém em Solara amava mais a luz — ou temia mais a falta dela — do que a pequena Princesa Lúcia.

Lúcia era uma menina doce, com cabelos da cor de trigo maduro e olhos curiosos. Ela era valente quando se tratava de subir em árvores ou aprender a andar a cavalo. Mas, quando o relógio da torre badalava seis vezes e o sol começava a se esconder atrás das Montanhas Roxas, a coragem de Lúcia desaparecia junto com a luz.

Para Lúcia, a noite não era um momento de descanso. Era o momento em que os cantos do seu quarto se enchiam de sombras que pareciam lobos, e o espaço debaixo da sua cama se tornava o esconderijo de criaturas imaginárias.

— Por favor, Papai, mais uma vela! — pedia ela todas as noites.

O Rei, que amava muito sua filha, mandava trazer mais castiçais. O quarto de Lúcia à noite brilhava quase tanto quanto ao meio-dia. Havia lanternas de óleo, velas de cera de abelha e até vaga-lumes presos em potes de cristal. Lúcia dormia cercada por um círculo de fogo e luz, suando debaixo dos cobertores, com medo de que, se uma única chama se apagasse, o Escuro a pegaria.

Até que, numa noite de outono, o Vento do Norte resolveu visitar o reino.

Não foi uma tempestade brava, mas foi um vento soprado, forte e brincalhão. Ele uivou pelas chaminés e dançou pelos corredores. E, com um sopro particularmente forte, ele abriu as janelas do quarto da princesa.

Fuuuuuuu!

Num piscar de olhos, todas as velas se apagaram. As lanternas tombaram (felizmente sem causar incêndio, pois eram mágicas) e os potes de cristal rolaram para longe.

Pela primeira vez em sua vida, Lúcia estava na escuridão total.

A menina puxou o cobertor até o nariz. Seu coração batia tão forte que parecia um tamborzinho: tum-tum, tum-tum. Ela fechou os olhos com força, esperando que os monstros do escuro aparecessem. Ela esperou ouvir rugidos, ou sentir garras frias.

Mas nada aconteceu.

O quarto estava silencioso.

Então, Lúcia ouviu um som. Não era um rugido. Era um som suave, ritmado e tranquilo. Cri-cri… cri-cri… Ela abriu um olho, apenas uma frestinha.

No parapeito da sua janela aberta, pousada contra o céu azul-marinho, estava uma coruja. Mas não era uma coruja comum. Suas penas pareciam feitas de prata e seus olhos eram grandes e gentis, como duas luas cheias.

— Quem… quem está aí? — gaguejou Lúcia, tremendo.

— Sou apenas Nyx — respondeu a coruja. Sua voz era grave e macia, como veludo. — Por que você está tremendo, Pequena Luz?

— O Escuro! — sussurrou Lúcia. — Ele entrou no meu quarto. Ele vai me engolir. Ele é vazio e assustador.

A coruja Nyx soltou uma risadinha baixa, que soou como folhas secas sendo pisadas. — Engolir você? Oh, não, minha querida. O Escuro não come ninguém. O Escuro é apenas um cobertor. Você tem medo do seu cobertor de lã?

— Não — disse Lúcia, confusa. — O cobertor me esquenta.

— O Escuro faz a mesma coisa — explicou Nyx, estendendo uma asa prateada. — O Sol é maravilhoso, sim. Ele é barulhento, quente e cheio de energia. Mas o mundo se cansa, Princesa. As árvores se cansam de crescer, as flores se cansam de abrir, e as crianças se cansam de brincar. O Escuro é o jeito que o universo tem de dizer: “Shiii… descanse agora. Eu cubro seus olhos para que você possa sonhar.”

Lúcia sentou-se na cama. Seus olhos já haviam se acostumado com a falta de luz e, para sua surpresa, ela conseguia ver. O quarto não estava preto como tinta. Estava banhado em tons de azul e cinza.

— Venha — chamou Nyx. — Quero lhe mostrar o que a luz esconde.

Com um pouco de hesitação, Lúcia saiu da cama. O chão de madeira estava frio, mas agradável. Ela foi até a janela.

— Olhe para o jardim — disse a coruja.

Lúcia olhou. Durante o dia, o jardim real era uma explosão de cores vibrantes: vermelhos, amarelos e laranjas que doíam os olhos. Mas agora, sob a luz das estrelas, o jardim era prateado e misterioso. Ela viu flores que ela nunca tinha notado antes. Eram Damas-da-Noite, flores brancas que se abriam apenas quando o sol ia embora, soltando um perfume doce que o calor do dia queimaria.

— Você está sentindo o cheiro? — perguntou Nyx. — O perfume da noite é mais doce. E ouça…

Lúcia fechou os olhos. Sem o barulho das carruagens, dos ferreiros e dos guardas gritando, ela ouvia a música do mundo. O vento nas folhas soava como um sussurro de segredo. O riacho ao longe parecia uma canção de ninar. Os grilos eram violinos minúsculos.

— É… é bonito — admitiu Lúcia.

— Agora, olhe para cima — instruiu a coruja.

Lúcia inclinou a cabeça para fora da janela. Ela engasgou. Como ela sempre dormia com cem velas acesas, o céu de sua janela sempre parecia um borrão preto. Mas agora, sem a competição das velas, o céu era um manto infinito cravejado de diamantes. Havia milhares, milhões de estrelas. Havia nuvens de poeira estelar rosa e roxa. Havia constelações que desenhavam histórias de heróis e dragões.

— Se o sol nunca fosse embora — disse Nyx suavemente —, você nunca veria as estrelas. A luz é ciumenta, Lúcia. Ela quer toda a atenção. Mas o Escuro… o Escuro é humilde. Ele se apaga para que as coisas distantes e mágicas possam brilhar.

Lúcia estendeu a mão para o céu, como se pudesse pegar uma estrela. — Eu achava que o escuro era vazio — disse ela.

— O escuro é uma tela em branco — corrigiu Nyx. — É onde os sonhos são pintados. É onde sua imaginação pode descansar.

A princesa sentiu um bocejo subir por sua garganta. Pela primeira vez em anos, não era um bocejo de exaustão nervosa, mas um bocejo gostoso, pesado. O ar fresco da noite acariciava seu rosto. Ela percebeu que as sombras no canto do quarto não eram monstros; eram apenas sua cadeira de balanço e seu guarda-roupa, descansando também.

— Obrigada, Nyx — sussurrou Lúcia, esfregando os olhos.

— Durma bem, Pequena Luz — disse a coruja. E com um bater de asas silencioso, ela voou em direção à lua.

Lúcia voltou para a cama. Ela tateou a mesa de cabeceira e encontrou sua caixa de fósforos. Ela pensou em acender uma vela, apenas uma. Mas então ela olhou para o quarto banhado pelo luar azulado. Parecia tão calmo. Tão fresco. Tão gentil.

Ela deixou a caixa de fósforos de lado.

Puxou o cobertor de lã até o queixo e imaginou que o céu noturno era um segundo cobertor, feito de veludo macio e polvilhado de estrelas, cobrindo todo o castelo com um abraço protetor.

— Boa noite, escuro — sussurrou ela.

E o escuro, em seu silêncio acolhedor, pareceu responder: Boa noite, princesa.

Na manhã seguinte, quando o Rei e a Rainha entraram no quarto, esperavam encontrar Lúcia chorando por causa das velas apagadas pelo vento. Em vez disso, encontraram a princesa dormindo profundamente, com um sorriso tranquilo no rosto, banhada apenas pela luz suave da manhã que começava a entrar. Não havia velas acesas.

Daquele dia em diante, a Princesa Lúcia nunca mais teve medo. Ela aprendeu que o dia é para brincar e correr, mas a noite… ah, a noite é para sonhar, ouvir os grilos e deixar as estrelas guiarem sua imaginação. E, às vezes, quando o sol se punha, ela corria para a janela, piscava para a primeira estrela que aparecia e dizia: “Obrigada por cuidar de mim”.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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