Barnabé, o Jacaré Florista

No Pântano das Sombras, a regra era clara: se você ouvir um chof, chof, chof pesado na água, fuja o mais rápido que puder, pois o Barnabé está chegando!
Barnabé era o maior jacaré de toda a região. Ele tinha um rabo pesado como um tronco de árvore, olhos amarelos que brilhavam no escuro e um sorriso que mostrava oitenta dentes afiadíssimos. Quando ele bocejava, os sapos pulavam para as árvores e as garças saíam voando em desespero.
Mas havia um grande mal-entendido no pântano. Barnabé não queria comer ninguém. Na verdade, a ideia de caçar o deixava enjoado. O que Barnabé realmente amava fazer... era plantar flores.
Enquanto os outros jacarés passavam o dia tomando sol e tentando parecer assustadores, Barnabé estava no fundo do seu jardim secreto, usando um minúsculo regador feito de casca de coco. Com a pontinha de sua garra afiada, ele cavava buracos delicados para plantar orquídeas, lírios d'água e vitórias-régias cor-de-rosa. Ele até cantava cantigas de ninar para as sementes brotarem mais rápido.
Um dia, Barnabé decidiu que era hora de fazer amigos. Ele colheu um buquê das suas margaridas do pântano mais bonitas, amarrou com um cipó e nadou até a beira da lagoa, onde a família dos patos estava fazendo um piquenique.
Ele emergiu da água, abriu seu enorme sorriso dentuço e estendeu as flores.
— B-bom dia! — tentou dizer Barnabé com sua voz grossa. — Alguém aceita uma margarida?
Mas tudo o que os patos viram foram os dentes.
— SOCORRO! O MONSTRO DO PÂNTANO QUER NOS PEGAR! — gritou a Mamãe Pata, batendo as asas freneticamente e fugindo com seus filhotes.
O buquê caiu das garras de Barnabé, espalhando as pétalas na água barrenta. Triste, ele afundou lentamente, deixando apenas os olhos para fora d'água.
— Ninguém nunca vai gostar de mim — suspirou ele, soltando uma bolha gigante. — Eu pareço um vilão, mesmo querendo ser apenas um florista.
Ele se isolou em seu jardim e prometeu que nunca mais tentaria falar com ninguém.
Semanas se passaram, e o pântano enfrentou um problema gravíssimo. Um calor fora do normal secou as margens e uma praga de insetos comedores de folhas devorou quase toda a vegetação. Sem as plantas, os sapinhos não tinham onde se esconder do sol, e os patos não tinham raízes macias para comer. O pântano estava triste, marrom e murcho.
O único lugar que ainda brilhava de vida era o jardim secreto de Barnabé, protegido no centro da parte mais profunda do pântano. Ele havia cuidado de suas plantas com tanto amor e água fresca que elas estavam maiores e mais fortes do que nunca.
Uma tarde, ouvindo o choro fininho de fome dos patinhos, Barnabé não aguentou. Ele encheu duas grandes folhas de vitória-régia com os frutos mais suculentos do seu jardim, sementes nutritivas e flores frescas cheias de néctar.
Ele nadou até a margem seca e empurrou as folhas em direção aos animais famintos. Assim que o viram, os animais recuaram, tremendo.
Barnabé não tentou sorrir dessa vez. Ele apenas deu um passo para trás, abaixou a grande cabeça e disse baixinho:
— Não precisam ter medo. Eu não como carne. Eu só cultivo flores. A terra está seca, mas o meu jardim ainda vive. Por favor, comam. Tem o suficiente para todos.
A Mamãe Pata olhou para a comida, depois para o jacaré gigante que mantinha os olhos no chão, envergonhado de sua própria aparência. Aos poucos, um sapinho corajoso pulou até a folha e deu uma mordida em uma fruta doce. Ele sorriu. Logo, todos os animais estavam comendo, maravilhados com o sabor incrível das plantas.
— Você... você plantou tudo isso? — perguntou a Mamãe Pata, surpresa.
Barnabé concordou com a cabeça. — Eu rego todas as manhãs. As orquídeas são as minhas favoritas.
Os animais se olharam, sentindo-se muito bobos. Eles haviam julgado o jacaré pelo tamanho de seus dentes, sem nunca perguntar sobre o tamanho de seu coração.
A partir daquele dia, Barnabé nunca mais ficou sozinho. Os sapos ajudavam a caçar as pragas que ameaçavam suas flores, e os patos traziam sementes novas de lugares distantes. O pântano voltou a ser verde e florido, e o enorme jacaré finalmente pôde dar o seu sorriso de oitenta dentes sem que ninguém fugisse, pois agora todos sabiam que o único perigo que Barnabé oferecia era te dar um buquê de flores maravilhoso.
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