Aventura

O capacete de panela

Historinha O capacete de panela

Na casa de número 42, a cozinha não era apenas um lugar para fazer comida. Para o pequeno Dudu, de seis anos, aquele cômodo de azulejos brancos era uma estação espacial de alta tecnologia. E o objeto mais importante daquela estação estava guardado no armário de baixo, bem atrás da frigideira.

Era a Panela de Pressão Aposentada.

A mãe de Dudu dizia que a panela estava velha e sem a borracha, mas Dudu sabia a verdade: aquilo não era uma panela. Era o Capacete Sideral MK-Ultra.

Numa tarde de chuva, quando os desenhos na TV estavam repetidos e o gato Mingau dormia pesado no sofá, Dudu decidiu que era hora de uma missão.

Ele engatinhou até o armário, afastou as tampas barulhentas (clang, cleng!) e puxou a panela. Ela era grande, de alumínio fosco e, o mais importante, cabia perfeitamente na cabeça dele, cobrindo até o nariz. Dudu conseguia enxergar o mundo através do buraco onde ficava o pino da pressão, como se fosse uma mira telescópica.

— Comandante Dudu na escuta — disse ele, e sua voz ecoou metálica e grossa lá dentro. — Mingau, preparar para a decolagem.

O gato abriu um olho, bocejou e voltou a dormir. A tripulação estava tranquila demais, pensou Dudu. Ele pegou uma colher de pau (sua Espada de Plasma) e uma tampa de plástico (seu Escudo de Força).

Ele subiu na cadeira da cozinha. — Cinco… Quatro… Três… Dois… Um… VRUUUUUM!

Dudu pulou da cadeira para o chão. No momento em que seus pés tocaram o tapete, a cozinha desapareceu. O teto virou um céu infinito, pontilhado de estrelas. A geladeira se transformou em um monólito de gelo flutuante. E a Panela-Capacete vibrou, sintonizando as coordenadas de mundos distantes.

O primeiro mundo que apareceu no radar de Dudu era vermelho e tremelicante. — Estamos aterrissando no Planeta Gelatina! — anunciou ele para o eco da panela.

O chão ali não era duro. Era mole, doce e balançava a cada passo. Boing, boing, boing. Dudu dava pulos gigantescos. As árvores eram feitas de pirulitos de morango e os rios eram de calda de framboesa.

De repente, um habitante local apareceu. Era uma Amoeba Gigante Vermelha (que no mundo real era apenas a toalha vermelha da mesa que tinha caído no chão). — Quem ousa pisar no meu reino molenga? — imaginou Dudu que o monstro dizia.

— Sou o Comandante Dudu da Terra! — gritou ele, sua voz ressoando poderosa dentro do alumínio. — Vim em paz, mas trago minha colher de pau!

Ele deu um toque suave na Amoeba Vermelha com a colher. A criatura se rendeu imediatamente, transformando-se em uma capa de super-herói que Dudu amarrou no pescoço. Agora, ele era um astronauta com capa.

Dudu ajustou o capacete (que estava escorregando um pouco para os olhos) e voou para o próximo destino. Era uma esfera azul-clara e silenciosa.

O Planeta Algodão.

Aqui, tudo era fofo. Não havia barulho. O chão era feito de nuvens macias (muito parecidas com as almofadas do sofá da sala). Dudu se jogou no chão. Era impossível se machucar ali. — Que lugar confortável — suspirou ele, e o som de sua respiração dentro da panela parecia o vento soprando em uma caverna.

Pássaros feitos de bolhas de sabão voavam pelo céu, estourando com um som de ploc suave. Dudu tentou pegar um, mas ele se desfez em seus dedos. — O ar aqui é feito de sonhos — anotou ele em seu diário imaginário. — Perfeito para sonecas, mas um explorador não pode parar!

Para chegar ao último planeta, Dudu teve que atravessar o lugar mais perigoso da galáxia: o Cinturão de Asteroides Crocantes.

Na realidade, seu irmão mais velho tinha deixado um pacote de biscoitos aberto em cima da mesa. Na imaginação de Dudu, meteoros gigantes de chocolate voavam em sua direção.

— Cuidado, piloto! — gritou ele, desviando para a esquerda e para a direita. Zuum! Vuoosh!

Um asteroide passou raspando em seu capacete. PIM! O som do metal batendo em algo (talvez a perna da mesa) foi alto. — O escudo aguentou! — celebrou Dudu. A panela era indestrutível. Nem raios laser, nem biscoitos voadores podiam ferir o Comandante.

Finalmente, ele chegou ao destino final. O Planeta Dourado. Era o lugar onde o sol nunca se punha e tudo brilhava como ouro.

Dudu caminhou devagar. Ali, ele encontrou o Tesouro do Universo. Estava guardado no alto de uma montanha branca (a bancada da pia). Dudu esticou o braço, ficou na ponta dos pés e… alcançou.

Era o Pote de Biscoitos Proibidos (aqueles que a mãe guardava para as visitas).

— Conquistei o troféu! — sussurrou Dudu, vitorioso.

Ele se sentou no chão da cozinha, tirou a panela da cabeça e colocou-a no colo. Seu cabelo estava todo despenteado e suado, e havia uma marca vermelha na testa onde a borda da panela apertava. Mas seus olhos brilhavam mais que as estrelas que ele acabara de visitar.

Nesse momento, a mãe de Dudu entrou na cozinha. Ela viu o menino no chão, com a colher de pau numa mão, a panela velha no colo e um biscoito na outra mão.

— Eduardo! — disse ela, rindo. — O que você está fazendo com a minha panela velha? E com a toalha de mesa amarrada no pescoço?

Dudu sorriu, com a boca cheia de biscoito. — Você não entenderia, mamãe. É equipamento de astronauta. Acabei de voltar do Planeta Gelatina.

A mãe balançou a cabeça, pegou a panela e colocou-a na cabeça de Dudu novamente, dando um beijinho no “capacete”. — Tudo bem, Comandante. Mas lave as mãos, porque o abastecimento da nave vai ser servido. É hora do jantar.

Dudu tirou o capacete. A cozinha voltou a ser cozinha. O teto voltou a ser branco. Mas ele sabia que, sempre que o tédio atacasse, o Capacete de Prata estaria lá, no fundo do armário, esperando para levá-lo onde a gravidade não existia e a aventura nunca tinha fim.

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historinha

Criador de historia infantil, adoro criar historinhas e também sou uma amante da literatura. Editor e fundador do Historia para dormir.

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