
O último sinal da escola tocou na sexta-feira à tarde, ecoando como uma trombeta de liberdade. Para a maioria das crianças do Bairro das Acácias, aquilo significava apenas dormir até tarde e jogar videogame. Mas para Sofia, Pedro, Duda e Lucas, aquele som marcava o início de algo muito maior.
Eles se reuniram na “Base”, que era, na verdade, a casa na árvore no quintal de Sofia. O lugar cheirava a madeira velha e giz de cera derretido pelo sol.
Sofia, a líder natural do grupo, ajustou os óculos e abriu um caderno grosso de capa dura. — Atenção, equipe — disse ela, com solenidade. — Temos trinta dias. Trinta páginas em branco. O risco de tédio é alto. As estatísticas dizem que no terceiro dia, alguém já vai estar reclamando que não tem nada para fazer.
Pedro, que estava pendurado de cabeça para baixo em um galho, riu. — Não se tivermos um plano.
— Exatamente — concordou Sofia. — Declaro aberta a primeira reunião do Clube da Aventura Infinita. Nossa regra número um: é proibido dizer “estou entediado”. Regra número dois: cada dia terá uma missão diferente, sorteada de dentro desta lata.
Ela ergueu uma lata de biscoitos antiga, agora decorada com adesivos de estrelas e planetas. Dentro dela, dezenas de papéis dobrados guardavam o destino das férias deles.
— Quem quer fazer as honras? — perguntou Sofia.
Duda, a mais corajosa e sempre com os joelhos ralados, enfiou a mão na lata. Ela tirou um papelzinho amarelo. — Missão número 1: A Grande Exploração Geográfica.
O grupo se entreolhou. O que aquilo significava? — Significa — improvisou Lucas, que adorava desenhar — que precisamos mapear o bairro como se fossemos exploradores chegando em Marte.
E assim, as férias começaram de verdade.
Naquele primeiro dia, o Bairro das Acácias deixou de ser um conjunto de ruas comuns. Munidos de binóculos feitos de rolos de papel higiênico e pranchetas, o Clube mapeou tudo. A casa do Sr. Eustáquio, que tinha um cachorro bravo, foi batizada de “A Caverna do Cérbero”. O parquinho abandonado no fim da rua virou “As Ruínas do Templo Antigo”. E a padaria da Dona Cida, claro, foi nomeada como “O Oásis dos Sonhos de Açúcar”. Eles voltaram para casa sujos, cansados, mas com um mapa detalhado colado na parede da casa na árvore.
A primeira semana voou. Na terça-feira, a missão sorteada foi “Operação Mestre Cuca”. Eles invadiram a cozinha da mãe de Pedro (com permissão, é claro) e tentaram criar o “Bolo Mais Colorido do Mundo”. O resultado foi uma massa roxa com gosto estranho de hortelã, mas a guerra de farinha que aconteceu durante o processo foi a parte mais divertida. Eles riram até a barriga doer enquanto limpavam o chão branco que parecia ter nevado.
Mas nem todas as missões eram barulhentas. No décimo dia, Lucas tirou um papel azul: “O Dia do Silêncio Observador”.
A missão era difícil: passar a tarde no quintal, sem falar, apenas observando a natureza. No começo, Duda achou que explodiria se não falasse. Mas, depois de vinte minutos, a mágica aconteceu. Eles viram um exército de formigas carregando folhas dez vezes maiores que elas. Viram um beija-flor azul cintilante pairar a centímetros do nariz de Sofia. Descobriram que, se ficassem quietos o suficiente, o mundo revelava segredos que o barulho escondia.
Houve o dia da “Olimpíada de Quintal”, onde as modalidades incluíam corrida de saco, arremesso de chinelo à distância e quem conseguia segurar um cubo de gelo na mão por mais tempo (Pedro venceu essa, alegando ter “mãos de pinguim”).
Porém, a maior aventura aconteceu no vigésimo dia. O papel sorteado dizia: “Resgate e Gentileza”.
Eles não sabiam o que resgatar, até ouvirem um miado triste vindo das “Ruínas do Templo Antigo” (o parquinho). Era um gatinho cinza, preso no topo do escorregador enferrujado, com medo de descer.
O Clube entrou em modo de emergência. — Lucas, desenhe um plano de aproximação! — gritou Sofia. — Duda, você é a escaladora. Pedro, prepare a “rede de segurança” (um lençol velho)!
Com cuidado e trabalho em equipe, Duda subiu na estrutura rangente. Ela estendeu a mão devagar, oferecendo um pedaço do sanduíche que tinha no bolso. O gatinho cheirou, hesitou e, finalmente, deixou-se pegar. Quando desceram, o grupo comemorou como se tivessem pousado na Lua. Eles levaram o gato para a mãe de Sofia, que acabou adotando o bichano e batizando-o de “Sorte”. A missão de gentileza tinha sido um sucesso absoluto.
Mas, como todas as coisas boas, as páginas do calendário foram virando. O sol de fevereiro começou a ter um tom diferente, mais alaranjado, avisando que o outono e as aulas estavam chegando.
Na última sexta-feira de férias, restava apenas um papel na lata. O grupo subiu na casa na árvore. O mapa na parede estava cheio de anotações. Havia medalhas de papelão penduradas no teto e fotos Polaroid coladas nas janelas.
Sofia pegou o último papel. Ela leu e sorriu com os olhos marejados. — Missão Final: A Cápsula do Tempo.
Eles passaram a tarde reunindo pequenos tesouros. Um desenho do mapa do bairro feito por Lucas. A receita do bolo roxo desastroso escrita por Pedro. Uma pena do beija-flor encontrada por Sofia. E a coleira antiga que o gato Sorte usava quando foi encontrado.
Colocaram tudo dentro da lata de biscoitos, que agora estava vazia de missões, mas cheia de memórias. Lacraram a tampa com fita adesiva prateada.
No fim da tarde, cavaram um buraco ao pé da árvore que sustentava a base. O sol se punha, pintando o céu de rosa e violeta.
— Prometem que vamos abrir isso quando terminarmos a escola? — perguntou Duda, limpando a terra das mãos.
— Prometemos — disseram os outros três em uníssono.
Eles cobriram a lata com terra. Pedro pulou em cima para compactar o solo.
— Sabe — disse Lucas, olhando para os amigos. — Todo mundo diz que férias boas são aquelas em que a gente viaja para a praia ou para a Disney. Mas eu acho que não trocaria nosso quintal por nada disso.
Sofia abraçou os amigos. — Nós não precisamos ir longe. Nós somos o Clube da Aventura Infinita. A gente cria o mundo onde a gente estiver.
Naquela noite, enquanto arrumava a mochila para o primeiro dia de aula, Sofia não sentiu a tristeza habitual de fim de férias. Ela olhou para os joelhos ralados, para o bronzeado de sol no braço e para o sorriso nas fotos. Ela sabia que a escola começaria na segunda-feira, mas também sabia que, enquanto tivesse aquela lata enterrada no quintal e aqueles três amigos ao seu lado, a aventura nunca, realmente, acabaria.



