
As férias de julho começaram com o som errado. Não era o som de ondas quebrando na praia, nem o som de pássaros cantando em um dia ensolarado. Era o som de chuva. Uma chuva grossa, cinzenta e incessante que batia no telhado da casa de campo da Tia Solange como se quisesse furar as telhas.
Alice, de dez anos, estava deitada no tapete da sala, olhando para o teto de madeira. — Isso é uma injustiça cósmica — resmungou ela. — Eu tenho três semanas de férias e o céu resolveu chorar em todas elas.
A casa da Tia Solange era antiga, cheia de corredores que estalavam e móveis que cheiravam a cera de abelha. Não havia internet, a TV só pegava dois canais (um de notícias e outro de culinária) e Alice tinha esquecido seus livros em casa.
— Vá explorar o sótão, querida — sugeriu a Tia Solange, passando com uma bandeja de biscoitos de nata. — Tem um baú lá com coisas da minha infância. Talvez encontre algo que não precise de eletricidade para funcionar.
Sem muita esperança, Alice subiu a escada em espiral que rangia como um fantasma com dor nas costas. O sótão era empoeirado, iluminado apenas por uma pequena janela redonda. No canto, debaixo de uma pilha de casacos de pele sintética, estava o baú.
Alice o abriu. Havia roupas velhas, bonecas de porcelana com olhos assustadores e, bem no fundo, um caderno.
Não era um caderno comum. A capa era de um couro azul profundo, macio ao toque, com fechos de prata que pareciam garras de dragão. Na frente, em letras douradas que brilhavam mesmo na penumbra, estava escrito: Diário das Possibilidades.
Curiosa, Alice levou o caderno e um estojo de canetas coloridas para o seu quarto. Sentou-se na cama, ouvindo a chuva lá fora, e abriu a primeira página. O papel era grosso, amarelado e cheirava a baunilha e mistério.
Pegou uma caneta azul e escreveu a data.
15 de Julho. Querido Diário, Estas férias estão sendo um desastre molhado. Está chovendo canivetes lá fora. Eu daria tudo para que o meu quarto virasse uma floresta tropical, quente e cheia de borboletas, só para esquecer esse frio.
Alice suspirou e fechou o diário. Foi então que sentiu algo estranho. O ar no quarto mudou. Ficou… úmido e quente. O cheiro de cera de abelha sumiu, substituído pelo perfume doce de orquídeas.
Ela abriu os olhos. O papel de parede floral do quarto não era mais papel. Eram plantas de verdade. Samambaias gigantes brotavam das gavetas da cômoda. O tapete felpudo tinha virado grama fofa. E, voando ao redor do lustre (que agora parecia um sol em miniatura), havia dezenas de borboletas azuis cintilantes.
Alice engasgou. Ela tocou em uma folha. Era real. Ela olhou para o diário sobre a cama. — Não pode ser…
Para testar, ela pegou a caneta novamente. Com a mão trêmula, escreveu logo abaixo: E seria muito legal se um macaquinho amigável me trouxesse uma banana.
Do alto do guarda-roupa, ouviu-se um guincho. Um sagui de tufo branco desceu por um cipó que pendia do teto, segurando uma banana madura, e a estendeu para Alice.
O coração de Alice batia tão forte que parecia um tambor. O diário não guardava segredos; ele criava realidades.
O dia seguinte foi a melhor terça-feira da história. Alice acordou cedo, ignorou a chuva que ainda caía lá fora, e abriu o diário.
Hoje, o corredor da casa será uma pista de corrida de Fórmula 1, e minha cama será o carro mais rápido do mundo.
Instantaneamente, o chão de madeira do corredor se transformou em asfalto quente. As paredes se afastaram, revelando arquibancadas lotadas de torcedores invisíveis que gritavam seu nome. A cama de Alice ganhou rodas cromadas, um volante de couro e um motor que rugia como um leão. Ela passou a manhã inteira acelerando pelos corredores, fazendo curvas perigosas perto da cozinha e ganhando troféus de ouro imaginários (que eram pesados e reais ao toque).
Na quarta-feira, Alice decidiu que queria companhia. Ela lembrou-se de Bruno, o filho do vizinho, que ela tinha visto no dia anterior, triste na varanda olhando a chuva.
Ela correu até a janela e gritou: — Ei, Bruno! Quer vir brincar?
O menino, vestindo uma capa de chuva amarela, correu até a varanda da Tia Solange. — Brincar de quê? — perguntou ele, sacudindo a água dos cabelos. — De olhar para a parede?
Alice sorriu com um brilho travesso nos olhos. — Vem cá. Tenho um segredo.
Ela o levou para a sala de estar. O diário estava aberto na mesinha de centro. — Escreve aí — disse ela. — O que você mais gosta?
Bruno olhou desconfiado, mas pegou a caneta. — Eu gosto de piratas.
Alice pegou a caneta da mão dele e escreveu com sua letra caprichada: A sala da Tia Solange agora é o convés do navio “Pérola Negra”, navegando pelo Mar do Caribe em busca do tesouro perdido do Barba Ruiva. Ah, e o chão é lava… digo, mar cheio de tubarões.
No momento em que ela colocou o ponto final, o sofá de veludo bege transformou-se em madeira rústica. O tapete virou água salgada agitada. O lustre balançava com o vento forte que entrou pelas janelas (agora escotilhas). Alice e Bruno olharam para suas roupas: eles vestiam casacos de capitão, chapéus de tricórnio e tinham espadas de plástico na cintura.
— Uau! — gritou Bruno, correndo para o “leme” (que antes era a poltrona do papai). — Içar velas, Alice! Tempestade à vista!
Eles passaram a tarde lutando contra lulas gigantes (que suspeitosamente se pareciam com as almofadas), fugindo de tubarões e desenhando mapas do tesouro. A Tia Solange, quando passou pela sala para ver se estava tudo bem, viu apenas duas crianças pulando no sofá e rindo, mas para Alice e Bruno, eles estavam salvando o mundo.
Os dias passaram voando. Quinta-feira foi o dia da Expedição Espacial na Cozinha, onde a geladeira virou um foguete e os potes de geleia eram espécimes alienígenas. Sexta-feira foi o Dia do Castelo Medieval no Quintal, onde o cachorro da tia virou um dragão (muito preguiçoso) que guardava a torre.
Mas, à medida que as páginas do diário iam sendo preenchidas, Alice notou algo. No começo, as transformações eram instantâneas e vívidas. Mas, lá pelo décimo dia, quando ela escreveu Quero que o banheiro seja um parque aquático, apenas o chuveiro soltou um pouco mais de água e algumas bolhas de sabão apareceram.
Na última página do diário, a tinta da caneta parecia não pegar direito. Era o último dia de férias. A chuva finalmente havia parado e o sol brilhava lá fora. Alice sentou-se na varanda com Bruno. O diário estava no seu colo, aberto na última folha em branco.
— O que vamos fazer hoje? — perguntou Bruno. — O diário parece cansado. Ontem o “zoológico” no quarto só tinha dois gatos e um papagaio.
Alice olhou para o livro. Ela pegou a caneta. Ela sabia que tinha apenas mais uma chance, mais uma aventura mágica antes que o livro acabasse. Ela poderia pedir para voar. Poderia pedir para conhecer fadas.
Mas então ela olhou para Bruno, que estava rindo de uma piada que ela contou. Olhou para o gramado verde e brilhante lá fora, cheio de poças de lama convidativas. Olhou para a árvore grande que parecia perfeita para ser escalada.
Ela percebeu que, nos últimos dias, o que tornava as aventuras incríveis não era apenas a mágica visual. Era a risada do Bruno quando ele escorregava no convés do navio. Era a emoção de inventar planos. Era a sensação de amizade.
A magia do diário tinha mostrado a ela como ver o mundo, mas ela não precisava que o mundo mudasse de verdade para se divertir.
Alice fechou o diário sem escrever nada na última página.
— O que houve? — perguntou Bruno. — Não vai escrever?
— Não — disse Alice, levantando-se e deixando o livro de capa azul sobre a mesa. — O diário precisa descansar para a próxima criança que o encontrar.
— Mas e a nossa aventura? — Bruno parecia desapontado.
Alice correu até o jardim e pulou na maior poça de lama que encontrou, espalhando respingos marrons para todo lado. — A aventura de hoje se chama: A Grande Batalha dos Monstros de Lama do Pântano Proibido! Mas a gente vai ter que usar a cabeça para ver os monstros.
Bruno sorriu, aquele sorriso largo que ia de orelha a orelha. Ele correu e pulou na poça ao lado dela. — Eu vejo um! Ele tem a cara da Tia Solange quando está brava!
Eles riram. E, pela primeira vez nas férias, a aventura foi 100% real, suja, barulhenta e absolutamente perfeita. Alice aprendeu que o Diário das Possibilidades era poderoso, mas a imaginação dela era a verdadeira caneta mágica que podia reescrever qualquer dia chuvoso.
Quando a mãe de Alice chegou para buscá-la, encontrou a filha suja, cansada e radiante. Alice guardou o diário azul de volta no fundo do baú no sótão. Ela piscou para o livro antes de fechar a tampa pesada.
— Obrigada — sussurrou ela.
Lá fora, o sol se punha, mas na cabeça de Alice, ela já estava escrevendo o primeiro capítulo das próximas férias, e dessa vez, ela não precisaria de papel nenhum.



