
A chuva batia na janela do quarto de Lucas como se fossem milhares de dedinhos pedindo para entrar. Era um sábado à tarde, cinzento e molhado, o tipo de dia que geralmente deixa as crianças tristes porque não podem jogar bola no quintal.
Mas Lucas não estava triste. Lucas estava eufórico.
No centro do tapete felpudo do seu quarto, estava o objeto mais valioso do universo. Não era um videogame, nem um tablet, nem uma bicicleta nova. Era uma caixa. Uma enorme, gigantesca e marrom caixa de papelão que tinha chegado naquela manhã trazendo a geladeira nova da sua mãe.
Para os adultos, aquilo era lixo reciclável. Para Lucas, de sete anos, aquilo era uma carcaça de espaçonave classe Alfa, esperando apenas um comandante para ganhar vida.
— Capitão Bolacha, na escuta? — disse Lucas, falando com seu cachorro vira-lata, que estava deitado no tapete roendo um brinquedo de borracha.
Bolacha levantou uma orelha e abanou o rabo.
— Ótimo. A tripulação está pronta.
Lucas pegou seu estojo de “ferramentas espaciais” (que na verdade era uma lata cheia de gizes de cera, canetinhas e fita adesiva). Ele passou a próxima hora trabalhando intensamente. Com a canetinha vermelha, desenhou um painel de controle complexo na parede interna da caixa. Havia botões para “Hipervelocidade”, “Escudos de Energia” e um botão muito importante chamado “Liberar Lanche”.
Na parte externa, ele desenhou janelas redondas e chamas saindo da base. Com a tesoura (sem ponta, claro), cortou uma portinhola que abria e fechava. Para completar, correu até a cozinha, pegou o escorredor de macarrão de alumínio da mãe e colocou na cabeça.
— Capacete de proteção: checado — murmurou ele, ajustando o escorredor que escorregava sobre seus olhos. — Capitão Bolacha, assumir posto de copiloto!
Ele pegou o cachorro (que não estava muito interessado em viagens espaciais, mas gostava de colo) e o colocou dentro da caixa. Lucas entrou em seguida e fechou as abas de papelão acima de sua cabeça.
O mundo lá fora ficou escuro. O cheiro era de papelão e giz de cera. Mas, no momento em que Lucas apertou o botão desenhado de “Iniciar Motores”, a mágica aconteceu.
VRUUUUUM…
O som começou na garganta de Lucas, mas logo parecia vir de todo o quarto. A caixa começou a tremer (graças aos joelhos de Lucas balançando).
— Contagem regressiva! — gritou ele. — Cinco… Quatro… Três… Segure-se, Bolacha! Dois… Um… DECOLAR!
Lucas deu um empurrão nas laterais e a caixa tombou para trás, apontando para o “céu”.
De repente, as paredes de papelão desapareceram. O teto do quarto, com seu lustre comum, transformou-se em um cosmos infinito. A chuva lá fora parou de ser água e virou uma chuva de meteoros cintilantes que riscavam a escuridão.
— Estamos em órbita! — anunciou Lucas. O painel de controle, antes feito de rabiscos tortos, agora piscava com luzes de neon azuis e verdes. O escorredor de macarrão era um capacete de titânio polido, refletindo a luz das estrelas.
Bolacha, que agora usava um traje espacial com quatro mangas, latiu para um cometa que passava.
— Cuidado, copiloto! — alertou Lucas, virando um volante imaginário para a esquerda. — Estamos entrando na Nebulosa da Sala de Estar. Dizem que há monstros de poeira gigantes aqui!
A nave, batizada de Apolo-Papelão, navegava suavemente pelo vácuo. Eles passaram pelo Planeta Abajur, que brilhava com uma luz amarela intensa, e desviaram dos Anéis de Saturno (que, curiosamente, pareciam muito com as almofadas do sofá da mãe de Lucas flutuando em gravidade zero).
— Capitão, nossos sensores detectam um sinal de socorro — disse Lucas, engrossando a voz para parecer um computador de bordo. — Vem do Planeta dos Brinquedos Perdidos.
Lucas ajustou as coordenadas. O “Planeta” ficava perigosamente perto de um buraco negro chamado “Debaixo da Cama”. Era uma missão arriscada.
— Vamos lá, Bolacha. Ninguém fica para trás.
A nave desceu turbulentamente. O vento solar batia no casco de papelão. Shhhhuuuu! Eles aterrissaram em uma superfície macia e cinzenta (que lembrava muito um cobertor velho). Lucas abriu a escotilha e flutuou para fora, preso por uma corda imaginária para não sair voando.
Lá, no meio de uma cratera de poeira estelar, estava ele: o Sargento Ursinho, um urso de pelúcia que Lucas havia perdido na semana passada. Ele estava preso sob uma “rocha” (que parecia um sapato tênis).
— Aguente firme, Sargento! — gritou Lucas.
A gravidade naquele planeta era pesada. Lucas sentia seus movimentos lentos, como se estivesse debaixo d’água. Ele caminhou até o urso, lutando contra o vento espacial imaginário. Bolacha latia encorajando-o da janela da nave.
Lucas agarrou a “rocha”. Fez força. Seus músculos de menino de sete anos se retesaram. — Um… dois… três! — Com um empurrão heroico, ele moveu o sapato-rocha.
O Sargento Ursinho estava livre! Lucas o abraçou. — Missão cumprida. Vamos para casa.
Mas, assim que eles voltaram para a nave e se prepararam para decolar, um alarme soou. Bip! Bip! Bip! — Oh, não! — exclamou Lucas, olhando para o painel de giz. — Nossos níveis de combustível estão caindo! A energia de imaginação está no fim! Precisamos de um reabastecimento urgente!
A nave começou a falhar. As luzes de neon piscaram e voltaram a parecer rabiscos de canetinha. O espaço infinito começou a mostrar rachaduras, revelando o papel de parede azul do quarto.
— Vamos cair! — gritou Lucas. — Bolacha, ativar propulsores de emergência!
O cachorro apenas bocejou e lambeu a mão de Lucas. Aquela lambida foi o combustível que faltava. O amor do seu copiloto deu a Lucas a energia final.
— Segurem-se! Entrada na atmosfera terrestre em 3… 2… 1…
PUM!
A caixa de papelão tombou de volta para a posição horizontal no tapete. O silêncio voltou ao quarto. Lucas abriu as abas da caixa lentamente. O espaço sideral tinha sumido. A chuva continuava batendo na janela. O painel de controle era apenas giz de cera novamente. O capacete era só um escorredor de macarrão que apertava sua orelha.
Mas, em sua mão, Lucas segurava o Sargento Ursinho, que ele havia resgatado de verdade debaixo da cama durante a brincadeira. E ao seu lado, Bolacha abanava o rabo, feliz por estar em terra firme.
A porta do quarto se abriu. Era a mãe de Lucas. — Lucas? O jantar está pronto. Fiz purê de batata. O que vocês estavam fazendo aí dentro dessa caixa velha?
Lucas saiu da caixa, suado, com o cabelo despenteado e os olhos brilhando com a luz de mil galáxias. Ele olhou para a caixa de papelão amassada e depois para a mãe. — Não é uma caixa, mãe — disse ele, com um sorriso misterioso. — É a nave mais rápida da galáxia. E nós acabamos de salvar o dia.
A mãe sorriu, sem entender completamente, mas vendo a magia nos olhos do filho. — Entendi, Comandante. Agora venha, antes que seu combustível acabe de vez.
Lucas tirou o escorredor da cabeça, pegou o urso resgatado e marchou para a cozinha. Ele sabia que a caixa estaria lá amanhã. E amanhã, quem sabe? Talvez eles viajassem para o fundo do mar ou para o centro da Terra. Porque, para Lucas, enquanto houvesse papelão e imaginação, o universo não tinha limites.



