
Quando o Sol se despede no horizonte, pintando o céu de roxo e laranja, a maioria dos habitantes do Jardim da Dona Flora se prepara para descansar. As margaridas fecham as suas pétalas brancas como quem fecha janelas para dormir. As abelhas zumbidoras retornam para a colmeia, exaustas de tanto voar. As formigas, sempre apressadas, selam as entradas do formigueiro com pequenas pedras para garantir a segurança da colónia.
O dia no jardim é barulhento e cheio de movimento. Mas a noite… a noite pertence ao silêncio. E a ele.
Gregório não era um grilo comum. Enquanto os outros grilos passavam a noite apenas a competir para ver quem cantava mais alto para impressionar a Lua, Gregório tinha uma missão. Ele vestia um colete feito de uma folha de hortelã seca e carregava consigo o seu bem mais precioso: as suas patas traseiras, afinadas e musculosas, prontas não apenas para a música, mas para o alerta.
Ele era o Sentinela do Orvalho. O Guardião que ninguém via.
Naquela noite de terça-feira, a Lua estava coberta por nuvens espessas, deixando o jardim mergulhado numa escuridão profunda. Gregório saltou para o seu posto de vigilância habitual: a folha mais alta de um pé de girassol que já começava a secar. Dali, ele tinha a visão de todo o território, desde o “Lago de Plástico” (a tigela de água do cão) até à “Muralha de Tijolos” (o muro do fundo).
— Tudo calmo no setor das Rosas — murmurou Gregório para si mesmo, esfregando as antenas para limpar a humidade. — Tudo tranquilo no Vale da Grama.
De repente, um brilho verde-neon piscou ao lado dele. — Boa noite, Capitão Gregório! — disse uma vozinha animada.
Era Vagalume Vico, o único outro habitante do jardim que levava a segurança a sério (embora Vico se distraísse facilmente com qualquer lâmpada acesa e tivesse um sentido de direção duvidoso).
— Mantenha a luz baixa, Vico — sussurrou Gregório, tenso. — A escuridão é nossa amiga hoje. Sinto algo no ar.
— Algo no ar? Cheiro de jasmim? Pólen de Dama-da-Noite? — perguntou Vico, piscando freneticamente.
— Não. Vibração.
Gregório encostou as patas no talo do girassol. O mundo dos insetos é feito de vibrações. E o que Gregório sentia não era o passo leve de uma joaninha ou o rastejar suave de uma lesma. Era algo pesado. Rápido. E faminto.
Tump. Tump. Tump.
O som vinha da direção da compostagem, no fundo do quintal.
— Vico, apague a luz e siga-me. Modo furtivo — ordenou o grilo.
Gregório saltou com precisão militar, caindo de folha em folha sem fazer barulho. Vico voava baixo, com a sua luz desligada, guiando-se apenas pelo som dos saltos do amigo.
Quando chegaram perto do canteiro de alfaces, viram a ameaça.
Era o Rato Rufino. Para um humano, ele seria apenas um pequeno rato do campo. Mas para os habitantes do jardim, ele era um gigante peludo, com bigodes que pareciam chicotes e dentes amarelados capazes de roer madeira maciça.
Rufino não estava ali pelas alfaces. Ele estava a cheirar o chão, seguindo uma trilha específica de feromonas.
— Ele está a ir para o Armazém das Formigas! — percebeu Gregório, horrorizado. — As formigas trabalharam o verão inteiro a estocar sementes e grãos. Se ele encontrar a entrada, vai devorar tudo. A colónia não sobreviverá ao inverno.
As formigas estavam seladas lá dentro, a dormir o sono profundo dos justos. Elas não tinham sentinelas do lado de fora. Estavam indefesas.
Rufino encontrou a pedra que tapava a entrada principal. Com as suas garras afiadas, começou a escavar. A terra voava para trás. Ele era rápido.
— Temos de atacar! — sussurrou Vico, acendendo o seu traseiro num vermelho de alerta. — Vou picá-lo!
— Não! — Gregório segurou o amigo. — Tu não tens ferrão, Vico, és um vagalume. E ele é cem vezes maior do que nós. A força bruta não vai funcionar. Precisamos de estratégia.
Gregório olhou ao redor. O jardim estava cheio de ferramentas, se soubessem onde procurar. Os seus olhos pousaram num objeto metálico e brilhante esquecido pelo humano da casa, o “Seu” Joaquim, perto da mangueira. Era um balde de zinco, deitado de lado, com o fundo ainda com um pouco de água da chuva.
Um plano formou-se na mente do grilo.
— Vico, preciso que uses a tua luz. O mais forte que conseguires. Quero que faças o “Voo da Mosca Tonta” bem na frente do focinho dele.
— O Voo da Mosca Tonta? — Vico engoliu em seco. — Mas isso é perigoso!
— É a única hipótese. Tens de o irritar. Fá-lo perseguir-te. Eu estarei à espera no Balde.
Vico respirou fundo, estufou o peito minúsculo e acendeu a sua luz na potência máxima. — Pelo Jardim! — gritou ele, zunindo em direção ao rato.
Rufino já tinha removido a pedra da entrada do formigueiro quando uma luz cegante começou a dançar na frente dos seus olhos pretos. Zzzzzzzzt! Vico passava a milímetros do nariz do rato, ziguezagueando de forma imprevisível.
Rufino sacudiu a cabeça. Tentou morder a luz, mas Vico era rápido demais. O rato rosnou, irritado. Ele queria sementes, não um inseto irritante. Ele tentou voltar a cavar, mas Vico mergulhou e aterrou — puf — bem na orelha esquerda do rato, antes de voar novamente.
Aquilo foi a gota de água. Rufino, furioso, abandonou o formigueiro e saltou atrás da luzinha insolente.
— Agora, Vico! Traga-o para cá! — pensou Gregório, posicionado na borda do balde de zinco.
A perseguição foi frenética. Vico voava baixo, fazendo curvas fechadas entre os vasos de cerâmica, com o rato gigante a destruir plantas e a derrubar pedras no seu encalço.
Quando Vico chegou perto do balde, ele subiu abruptamente, apagando a luz e desaparecendo na escuridão do céu.
Rufino travou. Ele tinha perdido o alvo. Estava parado bem em frente à abertura do balde deitado.
Foi então que Gregório entrou em ação. Ele não usou força. Ele usou o som.
Gregório esfregou as suas asas especiais com uma velocidade e intensidade que nunca tinha usado antes. Mas não era uma música bonita. Ele imitou o som agudo, estridente e aterrorizante de uma serpente cascavel.
Chiiiiiiiiiii-cril-cril-chiiiiiiiiiii!
O som ecoou dentro do balde de metal, o que o amplificou dez vezes. Parecia que um monstro enorme estava dentro daquele balde.
Rufino, que tinha um medo mortal de cobras, entrou em pânico. O instinto de sobrevivência falou mais alto do que a fome ou a raiva. Ele deu um salto mortal para trás, tropeçou numa raiz de dente-de-leão e saiu a correr em disparada na direção oposta, pulando o muro e sumindo noite adentro, jurando nunca mais voltar àquele jardim assombrado.
O silêncio voltou a reinar.
Gregório parou de cantar. As suas asas doíam, mas o coração estava leve. Vico desceu do céu, pousando ao lado do amigo, ofegante.
— Viste a cara dele? — riu Vico, a sua luz piscando num amarelo feliz. — Ele correu como se tivesse visto um fantasma!
Gregório sorriu, ajeitando o seu colete de hortelã. — Melhor do que isso, Vico. Ele correu porque ouviu o Guardião.
Eles caminharam até ao formigueiro. A pedra tinha sido movida, mas o túnel ainda estava intacto. Com muito esforço, Gregório e Vico empurraram a pedra de volta para o lugar, selando novamente a entrada.
Lá dentro, milhares de formigas dormiam, sonhando com açúcar e folhas, sem fazerem a menor ideia de que tinham estado a segundos de um desastre total.
Quando a primeira luz da aurora começou a tocar as pétalas das rosas, Gregório saltou de volta para o seu esconderijo sob a varanda. O seu turno tinha acabado. As abelhas começavam a acordar. O galo do vizinho limpava a garganta.
Ninguém saberia o que tinha acontecido. Não haveria medalhas, nem aplausos. Mas enquanto Gregório fechava os olhos para descansar, ouvindo o jardim despertar seguro e vibrante, ele sabia que a sua recompensa estava ali: na paz de mais um dia que nascia.
Porque um verdadeiro guardião não precisa de plateia. Ele precisa apenas saber que, quando a escuridão cai, ele estará lá.



