O Monstro que Tinha Cócegas no Pé

6 min de leituraHistorinha para dormir
O Monstro que Tinha Cócegas no Pé

No topo da Montanha do Espirro, onde as nuvens têm cheiro de algodão-doce e as pedras costumam bocejar, vivia Barnabé. Barnabé não era um monstro comum. Ele tinha três chifres cor de abóbora, uma cauda longa que parecia um espanador de pó e pelos tão verdes quanto um brócolis que tomou muito sol.

Mas Barnabé tinha um segredo terrível para um monstro de sua linhagem: ele tinha o ponto fraco mais sensível do mundo. Se uma formiga desse um passo em falso perto de seus pés, Barnabé já começava a dar risadinhas. Se uma pétala de flor caísse sobre seus dedos, ele rolava pelo chão em gargalhadas.

Barnabé era o monstro mais cóceguento da história.

O Grande Problema de Barnabé

Ser um monstro assustador é difícil quando você não consegue ficar parado. Toda vez que Barnabé tentava dar um rugido tenebroso para os pássaros, a grama roçava na sola de seus pés e o rugido saía como um: — RRRRRRRR-IHIHIHIHIHI!

Os passarinhos não fugiam. Eles faziam ninhos em seus chifres porque achavam que Barnabé era um tipo de brinquedo de parque de diversões que vibrava.

Certo dia, a situação piorou. O Rei dos Monstros, um sujeito chamado Grog o Carrancudo, anunciou que visitaria todas as cavernas da região para conferir quem tinha a postura mais “monstruosa”. Barnabé entrou em pânico. O chão da sua caverna era cheio de pedregulhos pontudos e musgos fofinhos — o pesadelo de qualquer pé sensível.

— Se o Rei Grog me vir rindo enquanto tento parecer malvado, ele vai me transformar em um puff de sala de estar! — soluçou Barnabé, enquanto seus próprios soluços faziam sua barriga tremer e, consequentemente, faziam cócegas em seus pés por dentro.

A Busca pelas Meias de Ferro

Barnabé decidiu que precisava de uma armadura. Mas não para o peito ou para a cabeça. Ele precisava proteger seus pés. Ele pegou sua mochila de couro de dragão e partiu em uma aventura rumo à Vila dos Duendes Sapateiros.

O caminho não foi fácil. Primeiro, ele teve que atravessar o Campo das Margaridas Dançantes. As margaridas adoravam fazer carinho nos viajantes. — Por favor, não! — implorava Barnabé, tentando caminhar nas pontas dos dedos (o que só tornava tudo mais engraçado, pois ele parecia uma bailarina verde gigante). — Tic, tic, tic — faziam as flores. — HAHAHAHA! PAREM! É UMA EMBOSCADA! — gritava Barnabé, enquanto disparava como um foguete pelo campo, deixando um rastro de risadas que ecoava por quilômetros.

Depois, ele chegou ao Rio de Gelatina. Para atravessar, ele precisaria pisar na superfície trêmula. Cada passo era como se mil dedinhos estivessem fazendo “cosquinha” entre seus dedos. Barnabé atravessou o rio dando saltos mortais, não por agilidade, mas porque não conseguia manter os pés parados no chão por mais de um segundo.

O Encontro com o Mestre Sapateiro

Finalmente, ele chegou à Vila dos Duendes. O mestre sapateiro, um duende ranzinza chamado Zigue-Zague, olhou para os pés enormes de Barnabé. — Eu quero as meias mais grossas, duras e sem graça que você tiver! — pediu o monstro, ainda ofegante. — Meias que não deixem eu sentir nada! Nem um grão de areia, nem um sopro de vento!

Zigue-Zague coçou a barba. — Para pés desse tamanho, só tenho uma solução: a Lã de Rocha da Caverna do Silêncio. É pesada, é feia, mas é indestrutível. Nada passa por ela.

O duende trabalhou durante três dias e três noites. O resultado foram duas meias cinzas, que pareciam dois sacos de cimento, mas eram macias por dentro. Barnabé as calçou. Foi uma glória! Ele pulou em cima de espinhos, pisou em penas de ganso e… nada! Ele não sentiu nenhuma cócega.

— Agora sim! — rugiu ele, e desta vez o rugido foi seco, firme e realmente assustador. — Eu sou Barnabé, o Imóvel!

O Dia da Inspeção

Barnabé voltou para sua caverna bem a tempo. O Rei Grog o Carrancudo chegou montado em um javali gigante, com uma expressão de quem tinha acabado de comer limão com casca.

— Muito bem, Barnabé — disse o Rei, com uma voz de trovão. — Mostre-me sua ferocidade. Fique parado como uma estátua de medo!

Barnabé se posicionou. Ele estava sério. Ele estava firme. Suas meias de lã de rocha o protegiam de tudo. O Rei Grog circulou o monstro, analisando cada centímetro. Ele tentou assustar Barnabé com um grito, mas Barnabé nem piscou.

No entanto, o destino é uma coisa engraçada.

Um pequeno esquilo, chamado Tico, que morava no teto da caverna, estava comendo uma avelã. De repente, a avelã escapou de suas patinhas e caiu… direto dentro da meia direita de Barnabé!

A avelã não era apenas uma semente. Ela estava viva de energia e começou a rolar de um lado para o outro, bem na curvatura do arco do pé de Barnabé.

O rosto de Barnabé começou a mudar. Suas bochechas ficaram vermelhas. Seus olhos começaram a lacrimejar. Ele mordeu os lábios com tanta força que parecia que ia explodir. — Algum problema, súdito? — perguntou o Rei Grog, aproximando o nariz do rosto de Barnabé.

— N-n-não… vossa majestade… — gaguejou Barnabé. A avelã deu uma cambalhota e tocou o dedinho mindinho dele.

Foi o fim. — HUHUHUHUHU! HAHAHAHA! RÁ-RÁ-RÁ! — Barnabé explodiu em uma gargalhada tão potente que as estalactites da caverna começaram a balançar.

Ele começou a chutar o ar, tentando tirar a meia. No processo, ele acabou dando um chute acidental (mas muito fofo) no traseiro do Rei Grog. O Rei, pego de surpresa, caiu sentado em uma poça de lama.

Uma Reviravolta Inesperada

Barnabé parou de rir instantaneamente. O silêncio tomou conta da caverna. “É agora”, pensou o monstro. “Vou virar um puff de sala de estar de luxo”.

O Rei Grog se levantou, limpando a lama do manto. Ele olhou para Barnabé. Ele olhou para as meias de pedra. E então, algo milagroso aconteceu: o Rei Grog soltou um sorrisinho. Depois uma risadinha. E, finalmente, uma gargalhada que parecia um terremoto.

— Por todos os calos de ogro! — exclamou o Rei Grog. — Faz duzentos anos que ninguém me faz rir! Todo mundo é tão sério, tão ranzinza, tão… chato! Barnabé, você tem o dom do riso explosivo!

O Rei explicou que ser assustador era importante, mas ser feliz era muito mais difícil. Ele nomeou Barnabé como o Ministro da Alegria Monstruosa.

Barnabé nunca mais precisou usar meias de pedra. Ele aprendeu que suas cócegas não eram uma fraqueza, mas um superpoder. Ele passou a organizar festas de “Guerra de Penas” na montanha, onde todos os monstros podiam rir até a barriga doer.

E quanto ao esquilo Tico? Ele ganhou um estoque vitalício de avelãs, desde que prometesse nunca mais derrubá-las dentro de nenhuma meia alheia.

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