
Miguel era um menino que brigava com o sono. Toda noite era a mesma história: a mãe lia um livro, o pai dava um beijo de boa noite, a luz se apagava, e Miguel ficava ali, com os olhos arregalados como duas luas cheias, encarando o teto. Ele achava que dormir era “perda de tempo”. Ele queria brincar, correr e desenhar, não ficar parado no escuro.
— O mundo é muito chato quando a gente fecha os olhos — resmungava ele, virando-se para o lado.
Mas naquela noite de terça-feira, algo diferente aconteceu. O relógio da sala badalou doze vezes. Blém… Blém… E, no exato momento em que a última badalada ecoou, Miguel ouviu um som vindo da janela.
Não era o vento. Não era um gato no telhado. Era um apito. Mas não um apito estridente e barulhento como os trens da cidade. Era um apito melódico, suave, que soava como uma flauta doce tocando uma canção de ninar. Piuuuu-fiiiii…
Miguel sentou-se na cama. Uma luz azulada e prateada, mais brilhante que o luar, inundou seu quarto. Ele correu para a janela e o que viu fez seu queixo cair.
Flutuando no ar, bem na altura do seu quarto (que ficava no segundo andar!), estava uma locomotiva magnífica. Ela não era feita de ferro enferrujado. Parecia feita de vidro azul-escuro, polido com poeira de estrelas. As rodas não tocavam trilhos, mas giravam sobre uma névoa leitosa que o próprio trem produzia. Do chaminé, saíam nuvens que tinham cheiro de lavanda e camomila.
A porta de um dos vagões se abriu e um senhor de barba branca, vestindo um uniforme azul-marinho com botões que eram pequenas estrelas de verdade, estendeu a mão.
— Todos a bordo! — sussurrou o senhor, com uma voz que parecia um abraço. — O Expresso da Meia-Noite vai partir. Próxima parada: Onde Você Quiser.
— Quem é o senhor? — perguntou Miguel, esquecendo-se de ter medo. — Eu sou o Capitão Órion, o Maquinista dos Sonhos. E você, jovem Miguel, está atrasado para a sua aventura. O sono não é o fim da diversão, é o começo da viagem. Venha!
Miguel, com seu pijama de foguetes, pulou a janela e aterrissou suavemente dentro do vagão.
Por fora, o trem parecia grande. Por dentro, era infinito. O chão era coberto por carpetes de musgo fofinho. As poltronas eram nuvens moldadas em forma de cadeiras. Havia outras crianças ali, todas de pijama, algumas cochilando, outras olhando pelas janelas de cristal.
— Sente-se aqui — disse Órion. — A regra é simples: para o trem andar, você precisa fechar os olhos e imaginar. O combustível deste trem é a imaginação.
Miguel sentou-se numa poltrona-nuvem. Era tão macia que ele afundou. Ele fechou os olhos e pensou na coisa que mais gostava: doces.
Tchuu-tchuu… Tchuu-tchuu… O trem começou a se mover. O balanço era suave, rítmico, hipnótico.
— Olhem pela janela! — anunciou o Capitão Órion.
Miguel abriu os olhos. O trem estava voando sobre uma paisagem cor-de-rosa e laranja. As montanhas eram feitas de sorvete de morango gigante, e a neve no topo era chantilly. Os rios eram de calda de chocolate morna.
Mas o mais incrível era que chovia. Mas não chovia água. Chovia granulado colorido!
O trem diminuiu a velocidade e as janelas se abriram sozinhas. O aroma de baunilha e caramelo invadiu o vagão. Miguel esticou a mão e pegou uma nuvenzinha que passava. Ele a colocou na boca: tinha gosto de algodão-doce de uva.
— Aqui no Vale do Açúcar — explicou Órion —, você pode comer o quanto quiser e a barriga nunca dói. E o melhor: não precisa escovar os dentes depois, porque o açúcar daqui é feito de sonhos, não de cáries.
As crianças riam, pegando jujubas que voavam como borboletas. Miguel estava encantado. Ele nunca imaginou que dormir pudesse ser tão delicioso.
O trem apitou novamente e ganhou altitude. As montanhas de sorvete ficaram para trás. Agora, tudo ao redor era um azul profundo e cintilante.
— Estamos debaixo d’água? — perguntou uma menina de pijama de bolinhas. — Não — respondeu Miguel, olhando com atenção. — Estamos no céu. Mas… olhem!
Navegando entre as estrelas, havia baleias. Baleias gigantescas, transparentes e luminosas, feitas de luz estelar. Elas nadavam no vácuo do espaço como se estivessem no fundo do mar. Golfinhos prateados saltavam sobre os anéis de Saturno.
O trem dos sonhos mergulhou nesse oceano cósmico. Uma baleia passou tão perto da janela de Miguel que ele pôde ver galáxias girando dentro da barriga dela. O som que elas faziam era uma música grave e calmante, que fazia as pálpebras de Miguel pesarem de uma forma gostosa.
— Elas são as Guardiãs do Sono Profundo — explicou o Capitão Órion, baixando a voz. — Elas garantem que ninguém tenha pesadelos. Enquanto elas nadarem, vocês estão seguros.
Miguel sentiu uma paz imensa. O medo que ele tinha do escuro do seu quarto parecia bobo agora. O escuro, ele percebeu, era apenas uma tela em branco onde as baleias de luz podiam nadar.
A viagem continuou. O cenário mudou para uma floresta vibrante. Mas as árvores não tinham folhas; tinham pipas. E os frutos eram bolas de futebol, io-iôs e bonecas.
O trem pousou suavemente em uma estação feita de peças de montar coloridas. — Esta é a Estação da Infância Eterna — disse Órion.
Lá fora, Miguel viu algo que fez seu coração pular. Viu seu carrinho vermelho, aquele que tinha perdido a roda e sumido há dois anos. Ele estava lá, novinho em folha, correndo sozinho numa pista de autorama gigante. Viu seu ursinho de pelúcia antigo tomando chá com um dinossauro de plástico.
— Os brinquedos vêm para cá quando vocês param de brincar com eles? — perguntou Miguel. — Não — sorriu o maquinista. — Eles vêm para cá quando vocês dormem, para consertarem a si mesmos e brincarem um pouco também. Eles esperam vocês acordarem para brincar de novo.
Miguel acenou para seu carrinho vermelho. O carrinho buzinou de volta, feliz. Miguel entendeu que nada se perdia no mundo dos sonhos; tudo ficava guardado com carinho na memória.memória.
A viagem estava sendo maravilhosa, mas Miguel começou a sentir um peso gostoso nos ombros. Seus olhos queriam fechar e ficar fechados. A poltrona-nuvem parecia abraçá-lo.
— Estamos chegando ao destino final — anunciou o Capitão Órion, com a voz agora num sussurro. — O Túnel do Descanso.
O trem entrou em um túnel longo. Não era um túnel escuro e assustador. As paredes brilhavam com uma luz violeta suave. O som do trem mudou. O tchuu-tchuu virou um som rítmico, como a batida do coração da mãe de Miguel. Tum-tum… tum-tum…
As luzes do vagão foram diminuindo devagar. As outras crianças já estavam dormindo profundamente, com sorrisos nos rostos.
O Capitão Órion passou pelo corredor, cobrindo cada criança com um cobertor tecido com fios de lua. Ele chegou até Miguel. — Gostou do passeio, Miguel? — Foi a melhor noite da minha vida — bocejou o menino. — Amanhã podemos ir de novo? — O trem passa todas as noites, Miguel — respondeu Órion, ajeitando o cobertor no pescoço do garoto. — Basta você fechar os olhos, deixar o corpo mole e embarcar. O bilhete de entrada é simplesmente… relaxar.
Miguel fechou os olhos. A imagem das baleias de luz, do sorvete de morango e do carrinho vermelho girou em sua mente, misturando-se até virar um sonho tranquilo.
O trem dos sonhos foi se desfazendo em névoa, deixando Miguel de volta em sua cama macia, seguro, quentinho e profundamente adormecido.
Na manhã seguinte, o sol entrou pela janela, fazendo cócegas no nariz de Miguel. Ele acordou espreguiçando-se, sentindo-se mais descansado do que nunca. — Bom dia, filho! — disse a mãe, entrando no quarto. — Dormiu bem? — Mãe, você não vai acreditar! — disse Miguel, pulando da cama. — Eu fui para o espaço com baleias e comi nuvens de uva!
A mãe riu e beijou a testa dele. — Que sonho lindo, meu amor.
Miguel correu para a janela. O trem não estava lá, claro. Mas, no parapeito da janela, havia uma pequena prova de que talvez, só talvez, não tivesse sido apenas um sonho comum. Havia um pouquinho de pó brilhante, azulado e prateado, como poeira de estrelas, cintilando na madeira. E um cheirinho bem fraco de lavanda e camomila no ar.
Miguel sorriu. Ele mal podia esperar para a noite chegar, fechar os olhos e ouvir novamente o apito suave do Expresso da Meia-Noite.
Piuuuu-fiiiii…
E assim, Miguel nunca mais teve medo de dormir. Porque ele aprendeu que fechar os olhos não é desligar o mundo, mas sim ligar a magia.



